Os Refugiados e o Espírito Solidário dos Portugueses

Este povo luso pode ser, na visão poético/caricatural queirosiana, “imbecilizado e resignado…macambúzio … fatalista…burro de carga…”; pode estar na cauda da Europa na maior parte dos critérios de desenvolvimento; pode estar em crise, de tanga, ou em estado de pujança económica, mas não há nenhum que se lhe assemelhe na sua intrínseca e genuína faceta misericordiosa de se solidarizar, de forma desprendida, com o próximo.
A onda solidária desencadeada pelo drama dos refugiados da Península Arábica, como acontece com a maioria dos movimentos desta natureza, nasceu e teve o seu grande impacto nas redes sociais. Ao primeiro sinal, os portugueses fizeram questão de se envolver, de corpo e alma, no drama dos sírios, dos afegãos, dos iraquianos, dos egípcios, dos sudaneses, etc., arregaçando as mangas, conscientes de que uma daquelas famílias, uma daquelas crianças, que nada fizeram para merecer tal sofrimento, poderia muito bem ser a sua.
No entanto, como a complexidade do ser humano reside, em termos comportamentais, na forma diversa como cada um de nós reage a certos fenómenos, é compreensível que haja (felizmente, em número pouco expressivo) opositores a esta tão nobre causa, que não é mais do que um imperativo da espécie a que pertencemos.
 Essas vozes discordantes (ironia do destino!) ouvem-se, sob a forma de anonimato, nessas mesmas redes sociais e nos fóruns radiofónicos e televisivos, não movidas por sentimentos xenófobos ou racistas, como alguns pretendem, mas suportadas no argumento falacioso de que “essa gente” nos vem tirar os empregos e onerar as finanças públicas do nosso país.
Tomando como certo que tais desabafos são apenas epidérmicos, irreflectidos, porque resultado de uma mera verbalização que a própria alma não sente, convém que tenhamos presente as consequências do colapso do império colonial português: precisamente há 40 anos, mais de meio milhão de compatriotas nossos, fugindo da guerra travada nas então colónias ultramarinas, com sonhos interrompidos, viram-se forçados a regressar a Portugal, o seu país. Já na altura, entre os que cá estávamos, havia quem ousasse utilizar a mesma argumentaria para justificar a “incompatibilidade” de se fazer da “metrópole” um porto de abrigo para os regressados.
Depois de quatro décadas, fico com a sensação de que este foi o momento da nossa história contemporânea de que mais nos podemos orgulhar, ao pormos em prática o velho princípio bíblico da generosidade de que “onde cabem dois cabem três” ou “há sempre lugar na mesa para mais um” : todos foram “acomodados”, ninguém tirou o emprego a ninguém, e este país tornou-se cultural, civilizacional e socialmente muito mais rico e interessante.
É certamente este exemplo que os portugueses vão seguir, quando chamados à responsabilidade de acolher alguns desses milhares de homens, mulheres e crianças, que apenas fugiram da sua pátria para não morrer. Um acolhimento sem a perspectiva da vantagem, das condições prévias e das contrapartidas. Porque ninguém, fugido da guerra, pode suportar a humilhação de ser visto, no país de acolhimento, como alguém que “vai resolver os problemas demográficos” e da “falta de limpeza das florestas
Estando para breve a chegada ao nosso país de 4500 refugiados – sejam limpadores de florestas, trolhas, mecânicos, futebolistas, estudantes, professores, músicos, engenheiros ou médicos -, estou plenamente convencido que, honrando o passado, comprometidos com a imagem de gente civilizada, e sendo a solidariedade o traço genético que mais nos define, enquanto povo, a reintegração será um sucesso.