Os Sapatos e os Amigos…

Lá muito longe, nas nascentes do frio de enregelar, na maternidade dos nevoeiros cerrados, no caldeirão dos calores infernais, ali por detrás do Marão, bulia uma aldeia perdida nos montes e vales. Naqueles tempos, nos tempos da cadeira partida, a de Salazar, a escola primária era santuário respeitado pois que amedrontava. A professora, D. Maria Luísa, sabia o que tinha entre portas, um rebanho de miúdos a despontar, de olhos suplicantes no aprender, na novidade de saber ler e contar.
Márcio, filho do Pantaleão, Regedor da aldeia, era moço bem comportado, sabedor do rumo traçado com destino ao Porto, cidade paraíso onde vive o sonho. De cabelo encaracolado e rebelde, com óculos de doutor, era olhado de lado pelos outros meninos e meninas, futuros braços nos amanhos das terras, suportes das vidas de sobrevivência de seus pais. Márcio tinha amigo protector que o defendia nas brincadeiras maliciosas que os recreios propiciavam. Era o rapaz mais feliz do mundo quando a família se deslocava à horta de Zacarias pois que os terrenos pegavam com os do Sr. Humberto Paiva, Pai do Rodrigo, seu amigo e alma gémea. Aqui, protegidos por poço de nascente cristalina, as brincadeiras desenrolavam-se por debaixo de ramada americana onde o fresco apetece, brincou até á exaustão mixordado nas terras e pedras que o viram crescer. Estas duas famílias cultivavam a amizade e o respeito, desde gerações anteriores, e Márcio sentia como sua a família do amigo.
Rodrigo era filho e neto de sapateiros, dos sapateiros da aldeia e da vila. Sabia o que o esperava, ansiava pelo dia em que poderia sentir como suas as sovelas, os alicates, os fios do norte, a lamparina, a gaspeadeira, o sebo, a bancada, o banco, os cheiros e os amigos que o sítio cativava. Mas o fascínio daquele canto, do avô e agora do pai, era os conversares afáveis com os compinchas que procuravam os afagos dos Paivas.
Fazia-se silêncio quando o Sr. Humberto se dirigia ao Poço para lhe tirar o rolhão. A água cantava, livre, a caminho dos regos abertos a régua e esquadro. Feijões, alfaces, tomates, melões e flores recebiam a seiva da vida nos fins de tarde abrasadores. Sabia bem, lá nos fundos da aldeia, brincar e observar como estas famílias dividiam, sem quezílias, as águas contratadas pelos ancestrais, pelos antigos.
Os ventos da vida trocaram os destinos destes inseparáveis rufias. Márcio fez-se gente, licenciou-se em matemáticas e desapareceu nos fumos da cidade invicta. De longe a longe regressa ao ventre mas transporta consigo as agruras e desânimos da cidade. Perdeu o brilho dos olhos e raramente procura o amigo.
Rodrigo, sapateiro na vila que dista alguns quilómetros da aldeia onde vive, soube do regresso de Márcio e que lhe caiu em sortes a horta de Zacarias. Cedo demonstrou os rancores da civilização, os azedumes dos tempos e o cair das ilusões pois esqueceu os acordos da divisão das águas do poço da horta de Zacarias, com apertos de mão entre cavalheiros.
Naquela noite, noite melancólica de Agosto, numa varanda sem ventos ou brisas, Rodrigo suspira, embrulhado num problema de afectos. Seu pai, feito na vida que ensina, aluno brilhante na Tertúlia Sapateira, conforta o filho: ouve Rodrigo, não descures teu umbigo, cofre do amor-próprio e da soberba, mas fixa o que te digo, no mundo tudo se gasta incluindo Os Sapatos e os Amigos…