Ouvir de confissão

1. Não há muito tempo, precisamente no Mensageiro de Bragança, li uma referência ao enfado que por vezes sofrem os padres confessores, quando pessoas humildes, necessitadas de falar das suas vidas (talvez sofrendo de solidão, sem dúvida a maior das misérias imaginável), lhes querem contar o seu viver, por miúdos, coisas aparentemente sem importância nem social nem espiritual. Ficou-me dessa leitura uma impressão que me volta repetidamente, sobretudo quando na Igreja vejo alguém que se confessa.
Comparando com as celebrações litúrgicas por exemplo da Eucaristia, que pobreza a daquela imagem do sacramento da confissão: de uma criança ou jovem; um adulto; um velhinho ou uma velhinha; quase sempre vista de costas de joelhos perante o confessor, vestindo anonimamente. E contudo (sou agora levado a pensar), talvez que em nenhuma outra situação humana que eu conheça se passe coisa mais extraordinária: uma alma que se abre sem reserva, que abre os segredos que ela mesma guarda com vergonha perante si própria, a outra alma irmã, para quê? Para se comunicar na sua desgraça e receber misticamente alguma graça. Poderá haver coisa humana mais sagrada?

2. Todos, ou quase todos, falamos muito; e ouvimos pouco. Falar é agradável: quase toda a gente gosta de falar. Ouvir é castigo: poucas pessoas gostam de ouvir paciente e humildemente, em silêncio.
Lemos, na esplêndida e pouco falada Epístola de S. Tiago, este excerto: «Se alguém não peca, quando fala, esse é um homem perfeito, porque é capaz de dominar o seu corpo todo. Quando metemos um freio na boca dos cavalos, para que nos obedeçam, conseguimos dominar todo o seu corpo. Vede também os navios: por maiores que sejam, e mais violentos os ventos que os impelem, com um leme que é de pequena dimensão eles são conduzidos para onde quer ir aquele que segura o timão. Assim também, a língua é um membro pequeno, mas gaba-se de grandes efeitos. Vede como é preciso pouco fogo para pôr em chamas uma vasta floresta. A língua também é um fogo […] Não há nenhuma espécie de animais ferozes que o homem não consiga dominar; mas, a língua, nenhum homem a consegue dominar…» (cfr. Tg 3,1-13).

3. Em relação com esta grave questão humana de saber falar e de saber ouvir (sobre que talvez repouse essencialmente a comunicação entre os homens: a linguagem), recordo que, recentemente, o Papa Francisco referiu a importância da confissão sacramental para o perdão dos pecados; mas não deixou de focar a importância do acto daquele que ouve em confissão. Durante uma audiência-geral, disse que ele próprio se confessava de 15 em 15 dias, justificando: “Até o Papa é pecador e precisa de perdão”. E reconheceu que o seu confessor o compreende e o ajuda. A reflexão do Papa vinha a propósito do Evangelho do dia, em que Jesus dá aos seus apóstolos o poder de perdoar os pecados. Advertindo, porém, o Papa: “a Igreja não é dona do poder de perdoar os pecados, é servidora”. E a propósito deste serviço, disse que “um padre que não tenha capacidade de ouvir, de ser simpático e encorajar, não deve ouvir confissões até que mude de atitude.”

4. Pobres padres confessores! Mas, que extraordinária experiência humana espiritual que deve ser a sua! Que infinita altura de poder se lhe oferece, nas confissões. Tão capaz de os levar aos píncaros da misericórdia, numa participação divina, como às profundas dos abismos da maldade humana, se então desprezando ou pior gozando da miséria humana confessada na humildade.
Numa operação cirúrgica melindrosa e decisiva para a vida do doente, o médico cirurgião concentra-se puramente na sua melhor capacidade de o salvar, tapando-lhe o corpo em toda a dimensão que não seja a da doença. Excelente imagem, sobre a cura corporal de alguém que quer ser curada pela ciência dos homens.
É assim também que um médico espiritual deve curar espiritualmente outra pessoa. Pobres padres confessores, se confessam com menos atenção e cuidados do que operam os cirurgiões médicos humanos.