Parte de nós…

Noite calma, de fresca aragem, agradável. Por convite irrecusável lá fomos ao encontro do mundo para sítio onde a vida fervilha, pujante de juventude. Desembocar no Camões vindo das entranhas da terra é obra, arte ilusionista. O carro ficou a dormir lá no piso zero seis onde o betão aguenta muito escombro do terramoto de mil setecentos e cinquenta e cinco. O elevador despeja quatro sexagenários, adiantados, ali mesmo ao lado do cronista que, do alto do pedestal, nos observa.
As luzes, o barulho e seus ecos, a música que esvoaça, os fumos que nos contornam e inebriam, a magia delirante, a alegria que flutua, a amizade que nos guia, tudo nos diz que o arejamento é saudável, as conversas estabilizam e a partilha é motor contagiante.
As montras, iluminadas com cores de afago, transportam-nos para passados e futuros, os passeantes colam-se-nos, deixam-nos odores da noite e vozes que esvoaçam, a estátua do Chiado acena-nos, isto é, aponta dedo acusador inquirindo da ausência, do tardanço da aventura. E lá vamos, descendo a História a caminho do Grandela, herói das chamas, imitador de Nero.
O Sacramento, restaurante intimista, com o peso da História que verga, antigas instalações da Confeitaria Nacional com bocados da Muralha Fernandina, arcos de tijolo burro que nos falam do além e onde se pressentem cavalos no outrora espaço cavalariça do Palácio Valadares, é restaurante sem regras, onde ninguém consegue falar alto, o timbre tem por limite a escuta do outro. Por aqui as pressas ficam à porta e os paladares deglutem-se na pesquisa dos sabores. Sente-se no ar o batimento do coração da Trindade, isto é, Sacramento, Mártires e S. Nicolau.
Do Porto vieram os anfitriões, estes nossos Primos Rui e Isabel, excitam-se nos ensinamentos sobre nossa terra adoptiva, Lisboa: Mãe de Água das Amoreiras, Museus Dr. Anastácio Gonçalves e Vieira da Silva/Arpad Szenes. Embriagados nas descrições deslizamos nos tempos, fundimo-nos nas emoções e nos prazeres da escuta.
Voltamos ao mundo, à noite, ás gentes, aos barulhos, aos cantares, à pantominice e ao desfrutar. O que resta da Livraria Sá da Costa, agora recheada de livros regressados dos baús e dos sótãos foi íman de interesses, vagueamos pelos cheiros e poeiras de outros tempos.
Agora, rebuçado final, espera-nos o miradouro Santa Catarina, casa de Adamastor com varanda sobre o Tejo e onde, com toda a certeza, teremos acesso às luzinhas de Almada, aos navios fundeados, á visão privilegiada de Santos, Lapa e São Bento, Museu da Farmácia e, evidente, à irrecusável ponte 25 de Abril.
Estávamos a conversar com Camões e seus adoráveis amigos Cronistas do Reino quando, deslumbramento supremo, emergindo dum magote de juventude em movimento, de passos tropeções a caminho e de regresso de algures, de vozes sôfregas de aventura, eis que surge um rodinhas de bebé, em velocidade pressa, bem seguro por pai cuidador, Miguel nosso filho, e sob olhar atento de mãe zelosa, Gé nossa nora, vindos de convívio dos lados da Bica. A Avó, minha mulher, estremece, bastou-lhe o odor, ali mesmo e envolto em cobertores, na paz dos sonhos, a caminho do Metro e de casa, para lá das badaladas da meia-noite, de barriga cheia da partilha dos pais com amigos, circulava nosso neto Gabriel, adormecido e em pose de anjo. Após os cumprimentos e os espantos por encontro tão inesperado, a custo lá acedemos ao afastamento pois, ali naquele carrinho, desaparecia nos fumos da noite, Parte de Nós…