A PARTIDA DELA*

Quando a sua pele sua, ela põe-se nua e vai-se lavar. Quando sai do banho limpa-se, veste-se, pinta-se, põe o perfume, toma o pequeno-almoço, calça as botas, pega na carteira e nas chaves, abre a porta da rua, dá duas festas ao cão, abre o portão, dispara o comando para o fechar e inicia o dia sentada na viatura velhinha do século passado.
A beleza da beldade contrasta com o semblante do carro, a dar a velho, a cheirar a ferrugem. Quem a conhecer, olha-a muito bem na sua beleza, porque ela se porta como uma “lady”. Ela chama a atenção, mas o pópó não. Assim, nenhum homem lhe dá a mão!
Até aqui, ainda vai que não vai. O pior é se ela perde o emprego, tal como tantos pelo país (não fora, mas dentro). Até aqui, ela é uma felizarda apesar de andar num carro muito, muito velhinho. Mas pensava no facto de não se interessar por qualquer homem. Talvez fosse um pouco egoísta, não tinha vontade de prescindir da boa vida, com alimentação apropriada, com possibilidade de comprar roupas caras, perfumes, sapatos e sandálias na casa mais chique da sua cidade.
Um belo dia, ela perdeu a cabeça e deixou-se enrolar (começou a namorar) sem pensar com a cabeça. Deixou-se ir e pronto. A dicotomia mente/coração avivara-lhe a emoção e então procurou ouvir o coração. Namorou com ele, casou com ele e teve a maior pérola da vida, uma filhinha linda como o Sol. Assim abençoada, não foi difícil alterar os hábitos e tornou-se a melhor mãe do mundo. A filhinha e o marido converteram-se nas prioridades e só Deus sabe o sacrifício que teve de fazer para lhes proporcionar sempre, sempre, o melhor.
Pouca sorte, o pai perdeu o emprego. Foi despedido porque a empresa onde trabalhava se mudou para outro país. Adeus, carro novo! Começaram as discussões, sobretudo por falta de pão. Então, ele resolveu emigrar. Até ter trabalho fixo passou dificuldades, quer financeiras, quer de índole moral. No entanto, conseguiu arranjar amizades que lhe facultaram comunicar com a família, pelo telefone, pelo “face book”, pelo “skype”.
Por fim, foi trabalhar como ajudante de cozinheiro num restaurante. Começou a ganhar o ordenado mínimo, mas rapidamente aprendeu a arte e foi aumentado. Todas as semanas enviava uma transferência para casa. A esposa, cansada da vista e da distância, resolveu também emigrar e lembrou-se do infeliz convite do Primeiro, e deu os Passos necessários para ir ter com o marido. Lá fora, ainda vivem e querem continuar a viver, satisfeitos com uma trilogia de quase felicidade.
Esta história foi imposta, foi e é verídica. Na verdade, Portugal definhou até ao limite. Mantém-se no fundo mais fundo das profundezas humanas e sociais. Que será de nós?
Pergunta/Nota: Para que país emigrou o casal em causa?
*crise