PASCOELA

Nos idos da meninice e adolescência a Pascoela no meu sentir e sentidos era a continuação da Páscoa, mais florida, mais garrida nas tonalidades, embora no referente à aldeia dos prodígios, Lagarelhos para o leitor desprevenido tomar nota, as pascoelas e as violetas ganhassem em número no bordar as bordas dos caminhos.
No dia de Pascoela abria-se o último folar, rotundo, as carnes gordas durante a espera soltavam babas a humedecerem a massa transformando-a em paparreta deleitosa porque acrescida de uma rodela de salpicão, de chouriça ou bocado de presunto.
Nalguns anos a bênção das casas calhava na Pascoela, o calendário do Sr. Padre Aurélio o determinava. Vinha de Vilar de Ossos (ursos há centenas de anos deambulavam naquelas paragens) montado não numa alimária qual besta de bufarinheiro, sim numa égua rabuda, sempre em trote lento, nunca a vi a galopar.
O Padre Aurélio Vaz esteve nas trincheiras da guerra de 14-18, vicissitudes resultantes da dupla acção de Afonso Costa (a lei da separação, e o envio de tropas portuguesas para o terrível conflito). Na altura de entrar na casa da minha avó paterna, e até ao regresso do meu avô a viver no Brasil, recordava o terem sido camaradas de guerra, bebia um cálice de vinho fino, mordiscava um palito doce, o Chico retirava as moedas do pires, o resto dos mordomos comiam folar e bebiam vinho translúcido servido em copos usados nos dias de festa. À saída o bondoso pároco indagava sobre os meus progressos escolares, respondia titubeando, sorria ele despedindo-se fazendo-me uma festa no cabelo. Eu gostava deste sacerdote antigo pedagogo no Seminário de Vinhais.
E, os sinos? A minha perdição. Há anos escrevi uma crónica dedicada aos sinos do concelho de Vinhais, aludi ao seu valor como activo turístico tal como se comprova noutras paragens. A ideia era é incorporá-los como estuante activo vinhaense no sentido de provocar atracção de públicos de públicos vinculados às denominadas culturas clássicas e eruditas por um lado, por outro recuperar os filamentos da cultura popular para construir conteúdos de múltiplos tons e sons.
Os sinos terão sido inventados pelos egípcios (não adianto mais porque o espaço é curto), na Pascoela continuava a funçanata de os balouçar incessantemente, não faltavam especialistas no exercício de vários toques, repiques e repenicados, um autêntico bródio até ao toque das Trindades.
O sentido do tacto expandia-se num ápice nos jogos de «partir cacharros), no entanto, a cousa ganhava alento no decurso do baile onde era notória a selecção etária por os garotos ainda não terem catarro.
Não queria lembra-me da Pascoela! Mas lembro.
Armando Fernandes
PS. No dia 31 de Março, na Livraria Ferin (Lisboa), teve lugar a apresentação do mais recente livro de Ernesto Rodrigues, Uma Bondade Perfeita. Aos presentes ao acto o autor ofereceu notável composição literária em português cristalino a realçar as figuras do xadrez vivencial da obra. Saboroso presente.