A Pátria

A Pátria não se discute proclamava a propaganda salazarista. Discutir discutia-se, nem que fosse em surdina sussurrada. Não é redundância, era assim. Para lá das diferenças de opinião, Amar a Pátria estava (agora está?) fora de qualquer sombra de dúvida. Frequentei a guerra colonial em Cabinda, na mala pessoal e saco verde de campanha, trouxe, apenas, cópia de um louvor, somado ao sentimento de dever cumprido. Não censuro os fugitivos ao serviço militar, relativamente aos vociferantes contra a Portugalidade, nutro asco. A atomização do global escorado nas auto-estradas da informação tem esbatido, até postergado, a exaltação da ideia de Pátria, tratando-a ao modo de velharia roída, interessando apenas a saudosos e chauvinistas de várias escolas e credos. Nas antípodas de localismos torpes, revejo a Pátria nos multiformes actos praticados ao longo dos séculos, por portugueses salientes e anónimos, animosos na constante referência e reverência ao nosso Lar. Exemplos abundam, felizmente, de ancestrais nossos, capazes de acções audaciosas, a raiar a loucura, na defesa de Portugal, registos de diverso talante guardam-se, caso de Pátria Portuguesa, de Júlio Dantas. O saltitante escritor, outros ouve e há, quando referido nos dias de hoje provoca sorrisos analfabetos associando-o ao texto ácido de Almada. Nem Dantas, nem o artista autor do Manifesto são lidos como merecem, o primeiro escreve primorosamente, goste-se ou não da figura, o segundo continua a suscitar comentários ruidosos sem correspondência prática no que tange ao estudo da sua multifacetada obra. Ora, estes portugueses, à sua maneira, nunca pouparam esforços no sentido de engrandecerem o terrunho lusitano. No dia de Camões o ínclito poeta foi nomeado nos noticiários, ao modo pingente a faiscar na vulgaridade, teimei em reler a Arte de Ser Português do visionário do Marão, o fascinante tratado de medicina da autoria de um português, o único até agora, eleito Papa, além da referida obra de Dantas. Se me é permito: opíparo e jubiloso bródio em proveito próprio. Nem as natas faltaram, porque Dantas nomeia o nosso Braganção como testemunha interventiva no episódio envolvendo o Cardeal legado do Papa e Afonso Henriques. Somos a Nação mais antiga da Europa enquanto Estado, longe do patrioteirismo bacoco e insalubre, julgo conveniente empenharmo-nos no ensinar às crianças quão importante é compreenderem os valores da Pátria; estando guardados nas obras de artistas, artesãos, escritores e poetas, é questão de as abrir e…lê-las.