A política é para os espertos, estúpido!...

Após o golpe desferido no coração político de Seguro, o mínimo expectável de Costa seria mais decência, honestidade e coerência. Após a derrota eleitoral, não se lhe  exigiria que tomasse o caminho de casa (nenhum político menos honesto gosta de o fazer), mas ficava-lhe bem fazê-lo, depois de haver atirado Seguro para a sombra política da forma como o fez e a pretexto do que o fez. Que provasse humildade, ao invés de ambição despudorada, atropelando moral e ética. Não lhe admiro a esperteza de nível menor com que passou a prova da sobrevivência; desprezo-a, por execrável. Vencido, fez-se, habilidosamente, vencedor, amarfanhando a dignidade dos vitoriosos. Na ânsia de branquear a traição para com o seu correlegionário, quer ser primeiro-ministro ao preço que pagou, embebedado por política rasteira, sabendo o Presidente da República manietado pelos ditames constitucionais e a quem transmitira a posse de uma solução consistente que nunca teve. Afirmou que não aprovaria o Orçamento de Estado da minoria, desconhecendo-o embora. Afirmou e reafirmou a negação de qualquer entendimento ao seu lado direito. Disse que não rejeitaria levianamente o programa do Governo, sem que na existência de alternativa estável e duradoura (leia-se séria). Todavia, o programa tão pouco foi discutido; simplesmente, rejeitado. Nada de estranho este carneirismo dos pais da Pátria, obrigatoriamente disciplinados, necessidade cega de segurar a porca que os aleita. E, quanto a alternativa estável e duradoura, estamos conversados e entendidos. Os acordos sectoriais com parceiros de ocasião não passam de entendimentos frágeis, de conveniência pontual e partidária, jamais de interesse nacional. Rodas vivas de casamentos com diferentes noivos, em função dos dotes em jogo, nunca por amor, sempre por interesse. Não se argumente que as votações legislativas se destinam a eleger deputados impingidos e desconhecidos, amigos e compadres, porque, em boa verdade, em jogo havia dois candidatos a primeiro-ministro, e somente isso: Passos Coelho e António Costa. E o primeiro derrotou o segundo, sem mais. Se os socialistas houvessem ganho as ditas eleições, facilmente se entenderia que fossem chamados ao exercício da governação, assistindo-lhes o direito de se aliarem a quem entendessem, e a legitimidade seria inquestionável. A forma como, eventualmente, alcançarão o poder, essa, não (a)parece séria, nem leal, nem honesta, mas todo o seu contrário, grotesca.
A bancarrota espreitou-nos, e a austeridade foi necessária para a deixar para trás. Gente abnegada acabou com o incêndio e, quando já no seu rescaldo, eis que novo incêndio se aproxima, mais destruidor, certamente, se o (des)governo for entregue a aventureiros. E nova austeridade nos envolverá, bem mais pesada do que a sofrida. Quando tudo estiver na iminência da destruição, novamente serão chamados os salvadores da mesma linha. Oxalá que a tempo. Por mim, preferia continuar a carregar a austeridade que me foi imposta, por via da má gestão socialista, do que o suporte daquela que há-de vir, inexoravelmente. Estranho somente que, à vista da desgraça vindoura, muitos ainda acolham a desastrada solução, tendo em conta o que releva das sondagens. Possivelmente, aqueles que não virão a conhecer the day after, mas votam...
Escrevo segundo a antiga ortografia.