Portagens na Auto-estrada Transmontana

A Auto – Estrada Transmontana, desde a concepção do projecto à colocação do último metro de asfalto, sempre foi vista com muitas reservas. Quando em todo o território nacional estas vias de comunicação floresciam como cogumelos, não pela necessidade de servir os utilizadores, mas para satisfazer a teia de interesses que todos nós conhecemos, o “pobre” desconfiava da esmola A dada altura, pairava um misto de sensações contraditórias: de alívio, pelo avizinhar do final da obra, e de apreensão, vindo à ideia que quanto mais rápido fosse concluída, mais depressa começávamos a pagá-la.
Confesso que, ou por ingenuidade, ou pela noção de que esta via era um acto de justiça, só no pior dos pesadelos se poderia equacionar o pagamento de portagens. Em consciência, digamos, nenhum transmontano pôs a hipótese do assunto se prestar à discussão, pelo argumento (que ninguém dispensa) já gasto pelo uso: esta auto - estrada foi construída literalmente em cima do IP4; mal concebido, é certo, mas era a única ligação asfáltica que nos permitia aceder ao litoral.
Nestes termos, a falta de alternativas – a menos que, numa atitude de desprezo, num regresso ao passado, nos sugiram que de Bragança ao Porto optemos pelo itinerário que compreende as passagens por Vinhais – Vila Pouca de Aguiar – Arco de Baúlhe e Guimarães -, não pode contemplar outra solução que não seja pôr definitivamente de lado a intenção de introduzir portagens neste troço rodoviário.
Convém salientar, para evitar abusivas interpretações, que os transmontanos estão longe de pretender qualquer tratamento diferenciado; que, diga-se, sempre que se justificou, hoje e no passado, nunca houve nem a coragem nem a sensibilidade política para o reconhecer. Não se trata de um qualquer capricho, nem tão - pouco de reivindicar privilégios. Apenas se pretende chamar a atenção para a singularidade que representa a auto – estrada transmontana, sem paralelo no contexto nacional, pelas razões acima aduzidas.
Evitando, o quanto possível, a repetição de lugares – comuns, ainda que eles sejam o repositório de verdades universais, como forma de, no caso, cimentar a importância do não pagamento de portagens na via que recebeu o epíteto de “auto – estrada da justiça”, direi apenas que se a decisão governamental for contrária aos interesses dos utilizadores (residentes ou não), arrisco-me a afirmar que o Nordeste Transmontano, num futuro próximo, ficará irremediavelmente despovoado.
Perante, pois, a hipótese de não conseguirmos contrariar o princípio universal do utilizador/pagador, mantendo-se a decisão do pagamento de portagens na A4, a que acresce o encerramento de um número considerável de escolas públicas no distrito de Bragança, de unidades hospitalares, de tribunais, de organismos públicos, etc., não podemos deixar de nos interrogar sobre o porquê do Ministério da Educação conceder, no próximo ano lectivo, bolsas de estudo, no valor de 1200 euros anuais, a estudantes que pretendam frequentar o ensino superior em zonas do interior do país, “para que este não se desertifique”.
Ou há alguma lógica nisto (o que me parece improvável, pela contradição), ou há qualquer coisa que me escapa ao entendimento.
Apenas uma curiosidade para sustentar a ideia de que nós, bragançanos, qual sina, sentimos que a história se repete e que, ao longo dela, o conceito de coesão territorial tem sido um autêntico embuste: em 1856 foi inaugurado o primeiro troço de linha -  férrea em Portugal, de Lisboa ao Carregado. O comboio chegou a Bragança em 1906, ou seja, 50 anos mais tarde. Por “coincidência”, a primeira (?) linha no território nacional a ser desactivada, em 1991. O primeiro troço de auto – estrada no país, ligando Lisboa a Cascais, foi aberto em 1944; isto é, 69 anos antes de chegar a terras bragançanas.