Presidente, menos mal!

A análise das três semanas de crise política criada pela demissão de Vítor Gaspar (20 de Junho) e de Paulo Portas (3 de Julho) e pela idealista intervenção do Presidente da República, em 10 de Julho, conduz-nos às alternativas de Poder, necessárias ao funcionamento da democracia.
O que o Presidente da República propôs, em 10 de Julho, seria um pântano ainda maior do que aquele em que estávamos e voltámos a estar, desde 21 de Julho, em que o Presidente reconduziu a Coligação PSD/CDS, agora recauchutada em poderes imensos e perigosos para o CDS.
Se um casamento a dois já é difícil de manter exigindo muito namoro pelo meio, um casamento a três corre o risco de passar a pluriconcubinato e a jogo de possíveis «meretrizes» e «prostibulários».
A democracia funciona em quatro pilares: vontade de poder, caderno de projectos claro, vitória eleitoral e responsabilização perante os eleitores. Como queria o Presidente juntar três «senhoras» que, embora se «deitem» com os mesmos «amantes», dizem ao povo que não se dão bem com eles? É óbvio que, pelo menos no discurso, o PS tem de ter uma «amante» diferente da do PSD. Depois, uma vez no leito do poder, os jogos da sedução, do amor e da desonra podem ocorrer longe dos olhares do grande público, atraiçoado pela volúpia e pelos interesses económicos e financeiros escondidos.
Na prática, à prova dos factos, não me parece haver distinção entre PSD e PS. Na teoria, ela existe mas parece-me meramente retórica. Praticam ambos os mesmos erros hipócritas. Sócrates, em 1999, disse que podia correr leite e mel na terra prometida. Reingressado no poder, foi o que se viu: cortes e mais cortes nos desgraçados dos funcionários públicos, trabalhadores por conta de outrem e consumidores. Passos Coelho, na campanha eleitoral de 2011 disse que não eram necessários tantos sacrifícios. Chegado ao Poder, toca a dar o dito por não dito e estoirar com o país nos dois primeiros anos para tentar fazer a festa eleitoral nos dois anos seguintes. Correu-lhe mal e está atolado no pântano e o país na miséria.
Da iniciativa do Presidente, salva-se a possibilidade da existência desta alternativa, entre PSD e PS, ainda que balofa e mentirosa, para as próximas legislativas. Tentou o Presidente conseguir um concubinato de três, agora na moda lisboeta, embora muito perigoso para a sua idade mas só conseguiu reconciliar à força dois cônjuges desconfiados e cada vez mais em crise, instituindo-se ele próprio como tutor vigilante do funcionamento do Governo e da Coligação, numa imagem nova de maestro da cacofonia amoroestá-lhe no sangue mas, constitucionalmente, já não a pode pôr em prática, desde 1982.
Deve ser cá uma frustração ver tanto pontapé na ética política e no interesse geral do povo português! Até quando teremos de suportar aqueles três partidos tão enlameados, tão prejudicativos de Portugal e tão incapazes de se reciclarem?