Protecção dos animais e hipocrisia...

Como tantas outras todos os dias e a todas as horas, aquela gaivota insistia em se instalar na estância situada à beira-mar. Um zeloso funcionário tentou demovê-la do seu intuito, uma vez e outra vez, naturalmente porque incómoda para os utentes. Porventura confiante de que assim venceria a teimosia da ave, gesticulou com o pé na sua direcção, quiçá esperando que ela se desviasse para longe antes de a atingir. Gesto infeliz, porque, afinal, a gaivota não se mexeu e tombou, fulminada. O facto fora presenciado por alguém, membro de uma qualquer entidade protectora dos animais, que, diligente, o transmitiu a quem de direito. A peripécia acabaria por resultar na prática do politicamente correcto por parte da empregadora do funcionário: o seu despedimento. Sem pretender produzir qualquer crítica ou censura a quem optou por este desfecho, que respeito, confesso que, da minha parte, o resultado não seria idêntico; longe disso. Por nada mais do que por uma questão de princípio e de coerência relativamente ao que penso sobre a matéria. Entendo como pura hipocrisia esta defesa mentirosa dos direitos dos animais. Desde logo, a remissão do abate de uma gaivota, acredito piamente que involuntário, pelo despedimento de um trabalhador, sobremaneira se ganhador do sustento de uma família, não pode granjear o meu apoio pessoal. Ainda que respeite, repito, a decisão, mormente se preceituada normativamente. O que não significa que pactue com todos os preceitos que, em termos genéricos, as leis (ou as normas) nos traduzem. Porventura esta tomada de posição tenha preenchido o ego do zeloso denunciante protector dos animais, mas nunca preencheria o meu. E gostaria de saber se, assistindo o delator em causa a um enxovalho de uma criatura humana por outra, ou ao atentar contra a dignidade de alguém por alguém, ou a ofensas dignas de monta praticadas na pessoa de indefeso, seria tão zeloso na denúncia dessas práticas, ou não se resguardaria, antes, no sentido de se subtrair ao incómodo de um relato dos factos. Admito que a personagem em apreço não seja vegetariana militante e salive perante um bom prato contendo um apetitoso bife de vitela, uns saborosos nacos de cabrito ou de leitão, ou quejandas iguarias a degustar. E não me venha com a astúcia de que, para alimento humano, já é lícito o abate de animais; porque para mim não há meios termos: ou sim, ou não. Conhecemos civilizações onde o porco não é consumível, e outras onde é proibido o consumo de vaca. E ponto final. Porque da morte de uma gaivota se tratou, gostaria de lembrar que certos municípios estão apostados no extermínio de uma boa parte dos pombos que  conspurcam e corroem, entre outros, as estátuas implantadas em praças públicas. Ora, gostaria eu de ver o zeloso cavalheiro insurgir-se veementemente contra esta prática municipal. Ou contra as touradas, onde cavalos e touros são maltratados, alguns dos últimos até ao limite. Ou contra a caça que vai dizimando as poucas espécies que os fogos florestais vão poupando. Ou contra as montarias aos javalis, as corridas de cavalos, ou as chegas de touros. Quiçá ele cale a sua voz hipócrita, porque é muito mais penoso lutar contra o poder do que contra a fraqueza de um simples funcionário de uma estância balnear. E gostaria eu de saber qual terá sido o seu voto no referendo em que a despenalização do aborto saiu vencedora...
Escrevo segundo a antiga ortografia