Quanto vale a vida de uma mulher

Este título pode parecer provocatório, mas não é. Se olharmos para o que se passa à nossa volta e por esse mundo fora, verificamos que a vida da mulher tem pouco valor. A desvalorização começa em casa e pode terminar no tribunal, e é socialmente tolerada e sustentada em adágios populares. Em todos os continentes, em todas as classes sociais, em todas as idades, no espaço público e no privado, as mulheres continuam a morrer pelo facto de serem mulheres. É certo que as leis têm sido melhoradas e que a intolerância social tem aumentado, mas os resultados continuam muito aquém de desejável. Enfim, vai havendo variações de número e de grau, mas não de género.
Em Portugal, a violência doméstica tem estado presente na agenda mediática. Rara é a semana em que não há notícia de uma mulher assassinada por atuais ou ex-cônjuges, companheiros ou namorados. É um assunto da maior importância para o PS e que António Costa destaca na sua Agenda para a Década. Foi, aliás, graças à iniciativa de um governo socialista que a violência doméstica se tornou crime público em 2000. Um passo importante que permite que qualquer possa denunciar o crime às autoridades competentes. E não apenas a vítima que, por receio de males maiores ou por querer acreditar que no futuro ia ser diferente, frequentemente retirava a queixa.
Este ano, no nosso país, já morreram mais de três dezenas de mulheres num contexto de relações de intimidade, deixando mais de uma centena de órfãos. Elas são mortas por eles. Por aqueles com quem partilham a casa, a mesa e a cama. Pelos pais dos filhos. Por aqueles que as deviam respeitar e amar, assim o juraram, e com elas partilhar as alegrias e as tristezas de uma vida em comum. Algumas dessas mulheres foram mortas à frente dos filhos, outras morreram tentando protegê-los e outras ainda morreram com eles.
De vez em quando, mesmo nos países em que a vida de uma mulher parece valer menos que a de uma vaca, a opinião pública sobressalta-se e reage perante casos de violência extrema. Foi o caso da jovem indiana violada num autocarro por um grupo de homens e que acabou por morrer. Num país onde uma mulher é violada a cada vinte minutos, é um sinal de esperança que o assunto tenha chegado à campanha eleitoral pela voz de um descendente de Gandhi e nestes termos, segundo o jornal Público: “Estão a ser feitas grandes declarações sobre a Índia ter de se tornar numa grande potência. Qual grande potência, qual quê. Antes de falarmos em superpotência temos de fazer com que as mulheres se sintam seguras dentro de um autocarro” (in Público de 12/11/2014). Sabemos que as bonitas palavras de campanha podem não passar de boas intenções para eleitor ver, mas mesmo assim esta posição política é um sinal digno de registo, tendo em conta a tradicional indiferença das autoridades e da própria sociedade em relação à violência contra as mulheres. Felizmente, as sociedades vão tomando consciência da dimensão do problema e exigindo aos poderes públicos as medidas necessárias. É um imperativo ético pôr cobro a este flagelo e trabalhar para que as sociedades percebam que, como dizia Sartre, “a violência, seja qual for a maneira como se manifesta, é sempre uma derrota”.