Que Massada…..

 
Já lá vai. Foi há muito, os fumos e nevoeiros engoliram-no, são olhados de soslaio os que dele falam, o esquecimento fez lei. Mesmo assim e com sofrimento resisto á dragagem das memórias. Sei que muitos dos encavalitados nos centros do poder a ele devem a ascensão, nada seriam sem o grito da Liberdade, das lágrimas e vida de muitos lutadores, abridores de rumos. Dói fundo, apetece desistir. Que Massada.
A Igualdade, utópica meta de Abril, foi tragada pela infernal máquina propagandística dos ventos de Leste. A novidade sindical, de esclerosadas mentes em formato soviético, cativaram a luta operária e infiltraram-se no Estado manietando-o por dentro. Os privilégios corporativos cavaram o fosso desigual entre os sectores público e privado. Os grandes blocos industriais, trespassados por greves suicidas, sucumbiram ao desgaste. O latifúndio alentejano, assaltado por bandos comandados por políticos obscuros foi cremado nos ventos da ilusão. Os braços caíram. Que Massada.
Os dinheiros europeus, caídos das nuvens qual Maná, foram entregues nas mãos de um primeiro-ministro catapultado a visionário mas que a História julgará como desilusão suprema pois que os dinheiros destinados á substituição dos meios de produção foram empregues no luxo de industriais e políticos corruptos. Desperdiçando a mais que ajuda da gigantesca baixa do dólar e petróleo o cavaquismo apenas conseguiu enterrar a agricultura e pescas e encher o território de asfalto, os celebérrimos IPÊS, destruidores dos dinheiros públicos porque mal traçados e já substituídos por auto estradas, com super custos de que ninguém fala. Daqui, desta governação, saiu a quadrilha de malfeitores que nos sugaram os suores e alma. Apetece fugir. Que Massada.
E eis-nos chegados aqui. Uma esquerda moribunda e sem préstimo à vista coloca no poder a direita que nos atrofia, filosofando acerca dos caminhos que outros terão de executar. A um canto, esquelético e taciturno, maquinador e vingativo, sem chama e visão, sem íman mas com repelente, inerte e pródigo no deixa-andar, cá temos o Presidente de alguns. Com a ajuda da esquerda/direita eis-nos chegados ao limiar do desespero. Todos sabemos como este governo aqui chegou: um PEC IV assumido pela Europa e rejeitado por toda a oposição direita/esquerda, os queixinhas Catrogas/Frasquilho reais negociadores troicanos, traições às promessas e a aviltante conduta governativa de protecção aos que até aqui nos trouxeram, bancos, gestores e políticos corruptos. O esquecimento absoluto das pessoas, construtoras do país, conduz-nos ao desespero infindo, ao esvaziamento da alma, ao nefasto esgotamento e á desistência, antecâmara do precipício. Sinto-me parte de rebanho encurralado, entalado por este governo e este presidente e por uma oposição frouxa e sem desígnio nacional. Que Massada.
Conta a História que os Zelotas, região do Mar Morto em Israel, perseguidos e encurralados pelos Romanos no ano 70 DC, se refugiaram numa fortaleza. Incapacitados e sem ajudas, sem rumos e timoneiros, sem visão e desígnio, preferiram o suicídio colectivo, por impotência. Portugal aguarda um agigantamento, uma onda de varrimento, uma libertação incondicional, uma igualdade de facto. Esta espera da esquerda, da esquerda que correu louca pelas ruas de Abril a favor das gentes, da esquerda democrática pela qual lutou Soares, o único Estadista que a História lembrará, esta espera desespera. Que Massada.
Unamo-nos, afastemo-nos da parede, empunhemos a espada democrática e evitemos a suicida tragédia Zelota naquela Fortaleza de Massada. Que Massada…