Ranking das escolas: uma falácia repetida

Ernesto Carolino Gomes
Em variadas sedes e vezes diversas deixei clara a minha discordância em relação ao ranking das escolas e respectiva publicação. Porque ele nada me diz, além de me dizer da sua falácia. A avaliação de qualquer indivíduo, entidade ou instituição não se sustenta por comparação com qualquer outro indivíduo, outra entidade ou outra instituição. Porque são múltiplas e diferenciadas as condições e as condicionantes com que se deparam os comparáveis em jogo. À luz do moral, sensato e razoável, não são passíveis de comparação desempenhos de pilotos detentores de iguais capacidades que se confrontam em “máquinas” diferentes, ou de “máquinas” de características iguais manejadas por pilotos desiguais. Avaliação séria e honesta é, unicamente, aquela que realiza a comparação de alguém consigo próprio, não com outros diferentes. Explicitando, a avaliação consiste, unicamente, em comparar as metas atingidas por alguém com aquelas que era suposto atingir, tendo em conta as suas capacidades individuais, decorrentes da ambiência que faz dele aquilo que ele é. Se o mesmo alguém materializou um percurso que lhe permitiu ultrapassar a meta para o mesmo previsível, afirmar-se-á que se ultrapassou a si mesmo e, daí, obteve sucesso. Se, ao contrário, ficou aquém daquilo que as suas capacidades lhe permitiriam alcançar, então foi insucedido. E, todavia, a classificação obtida pelo segundo, ambos sujeitos a uma mesma escala, pode ter sido superior à do primeiro. E é, justamente, neste pormaior que reside a falácia do ranking em apreço. Torna-se inaceitável que se sujeitem à mesma escala escolas do litoral ou do interior profundo, de uma zona residencial de luxo ou de uma zona social, cultural e economicamente degradada, frequentadas por alunos tão diferenciados aos cuidados de docentes desigualmente qualificados. Não há “escolas de luxo” em “comunidades de lixo” (perdoe-se-me a asserção, somente usada para ser mais claro). Ser-me-á dito que, em cenário real, a panorâmica não equivale à que aqui e agora se apresenta, certo sendo que vence aquele que, na mesma escala, conseguir situar-se a nível mais além. Contraargumentarei que a vida e o futuro não podem decorrer somente de um número, frio. O que nos acarreta falsidades de monta que pagamos caro, quando nos entregamos e entregamos desígnios nas mãos de indivíduos que, escolares de excepção (na aparência), acabam por se nos revelar profissionais medíocres, desprovidos de saber, inábeis para o exercício das funções exigentes e finas que deveriam dominar à perfeição. E é nesses momentos, e são tantos, que lamento aqueles que, longe das condições que os poderiam bafejar, foram ficando pelo caminho, capacidades que não adquiriram ou não tiveram oportunidade de revelar, fragilmente sustentados naquela escala maldita ou dela fora lançados.
Haverá sempre alunos que nunca seriam “brilhantes”, por mais “brilhante” que fosse a escola que frequentassem. Porque, por detrás de uma escola assim, haveria sempre famílias desestruturadas, de(sin)formadas, desprotegidas. Muito embora seja adquirido que devem as escolas adaptar-se aos alunos, e não o seu contrário, é esse contrário que prevalece. E se é verdade que possa haver escolas que fazem alunos, no caso são estes que, em larga medida, fazem o ranking das escolas. Não sendo lícito tratar desiguais como iguais, lícito não é avaliar desiguais como se iguais fossem.
Escrevo segundo a antiga ortografia.