A Ratoeira

Apetece-me escrever e escrevo: os resultados eleitorais de domingo podem transformar-se numa ratoeira mortal para Passos Coelho. Apetece-me escrever e escrevo: a derrota de António Costa, a médio prazo pode-lhe render pingues lucros, reduzindo a cinzas a tenaz que está a ser construída pelos adversários, unindo socráticos e seguristas. Apetece-me escrever e escrevo: o Presidente Marcelo marcará novas eleições legislativas no início do próximo Verão, época calmosa propícia a mergulhos escalafriantes.
O derrotado Costa até às presidenciais tentará domesticar os ressabiados revoltosos do quadro de referência socialista, empregará o método da mão de ferro escondida na luva branca acolchoada, caso seja necessário utilizará a estratégia do salame, se persistir a resistência jogará o tudo por tudo escorado nos florões matriciais da Internacional Socialista.
Noutro quadro de referências utilizará os canais de comunicação de reserva no sentido de lembrar aos ortodoxos os tempos da frente popular as vantagens de não obstruírem a via, redobrando os afagos à evanescente Catarina lembrando-lhe a volatilidade dos votos que desta feita enriquecerem o seu enxoval. Ela percebe o abraço de Costa, no entanto, sabe quão mortífero pode ser enxotar o amplexo.
A partir de Abril o dialogante Costa escorado nos seus fiéis escudeiros principiará a perder as falas mansa ganhando intonações de rudeza a prenunciarem ventos fortes e chuvas violentas como se estivéssemos em época de monções. Além de fortes tais tempestades deixam um rasto juncado de destroços e árvores derribas, entenda-se pessoas. Na ressaca a Coligação tenderá a esticar a corda do compromisso, no pináculo do retesar a corda uma casca de banana ou manga levará à escorregadela e o supremo magistrado da Nação dissolverá o Parlamento marcando novo confronto eleitoral.
Não estou a sonhar, pode parecer, pura e simplesmente tento interpretar o clássico A Arte da Guerra adicionando-lhe crepes e acepipes dos últimos quarenta anos de governação, sem esquecer o facto, não é possível ignorar, de que só tivemos absoluta independência política durante os períodos pombalino e salazarista. Venham críticas ao aqui afirmado.
A ratoeira está a ser montada, as instituições europeias apesar de contrariadas serão esteios da mesma e, desculpem o atrevimento, o partido de Portas em nome «do interesse nacional» anuirá ao banimento de Passos, os distraídos façam o favor de vasculharem os arquivos e lerem os passos que não de Pedro, sim de Portas.
Não sou pitonisa, muito menos adivinho, mas que enxotei as ilusões, há muitos anos, lá isso enxotei.