Regresso a Abambres

Aqui e agora, nestas páginas, revisito Abambres, a aldeia onde nasci e que guardo no coração como uma mãe é guardada no coração de um filho, ou um avô no de um neto. Vezes amiudadas a ela me desloco, na ânsia sempre conseguida de reviver um passado longínquo, traduzido por uma infância feliz, a infância que deveriam merecer todas as crianças do mundo. Faço-o com o coração carregado de nostalgia e saudade. Porque dali e da minha família, do meu tempo e do meu espaço de felicidade, fui, abrupta e dolorosamente, arrancado para a escola, espaço e tempo de felicidade menor e de responsabilidade maior. Revivo a casa onde nasci, a igreja onde fui baptizado, os lugares onde fui crescendo os poucos e verdes anos que me mantive nesta terra que Deus abençoou e que alguns homens esqueceram ou menosprezaram.
Desta vez, saboreei um toque diferente, um colorido de afectos. Conversas com pessoas com quem me cruzei tantas vezes na minha e na sua infância, de que falámos, hoje todos abrigados no mesmo manto de idades respeitadas. Delicioso regresso ao passado este que me ofertaram, um passado lá longe, dezenas de anos atrás. Salpicos pequenos de recordações grandes e saborosas, a deixarem-me na pele texturas diferentes e aprazíveis, que só as galinhas conhecem e detêm. Perguntam-me se já visitara a que fora a minha casa, preparando-me com delicadeza para o enfrentamento de ruínas comoventes que me esperaria. Não sabiam que eu já o sabia, por isso amigavelmente cuidadosas. Agradeço-lhes por isso. A casa que, não somente por ter sido minha e dos meus, e por nela haver nascido, mas também porque fora a Casa do Povo, carregada do respectivo simbolismo, tenho pena em se perder, telha após telha, pedra após pedra. Os homens, quiçá mais do que eles a burocracia teimosamente imperante neste reino, distraíram-se dela. E esqueceram-na... Findam os seus terceiros por varanda de vistas que se impõem, com duas janelas laterais por cujos vidros trespassaram dos momentos mais nostálgicos que aí passei e aí vivi. Por uma, via o meu pai e os meus irmãos mais velhos, a cada segunda-feira, logo de manhã, desaparecerem na estrada, lá longe, a caminho da vila, onde os chamavam as suas obrigações. Acenava-lhes, mas não adivinhavam os meus acenos, para lhes corresponderem. Em casa ficávamos eu, a minha mãe e o meu irmão mais novo. Amputação de uma parte da família, num ritual repetido, semana a semana. Pela outra, assisti, choroso e com o coração a verter saudade, ao cortejo de gente que teve a piedade de acompanhar o meu avô ao cemitério, subindo vagarosamente o caminho de terra, até se perder do alcance da minha vista e eu me desviar para o interior da casa, coração de adulto sofrido em peito de criança. Eu e o meu sentimento de perda, brutal. Esvaíam-se as delícias das pequenas histórias e dos mimos ao seu colo, ou nos seus braços e abraços ternurentos.
Em gesto amável, foi-me permitido o acesso ao interior da igreja, monumento de muito longínquos tempos, de frescos riquíssimos que obras (relativamente) recentes descobriram, porém de cujo todo unicamente deixaram visíveis aligeirados trechos, como se de janelas se espreitasse uma ou outra árvore de uma floresta que se adivinha imensa e deslumbrante. É bem verdade e pena imensa tratar-se Abambres de território ultra-periférico, longe das vontades e centros decisórios, do poder e do mando económico, político e cultural...
Escrevo segundo a antiga ortografia.