Renascer…

Foi há muito. Nos meus púberes e imberbes dezassete anos, com oxigénio em demasia, de faces rúbeas e de borbulhas em explosão, de confronto com família tradicional, despertei para a cidadania, para a civilidade. Era desafiante encostar à oposição, provocar o regime. Tornei-me panfletário, distribuidor, pela calada da noite, de algo considerado subversivo. Andei nessa.
Mas, a informação, a procura e a conversa, a troca de ideias, tudo me iluminou. Já na Universidade, entre os diferentes, decidi não ir por ali, algo não batia certo. De lá, do Leste, não me sopravam bons ventos, o escuro, o mistério e a exclusão viviam nesse sítio onde a alma gela e o frio habita.
Li Portugal Amordaçado, conheci Mário Soares através dos livros, foi evidente, a Liberdade e Igualdade andariam de mãos dadas com o Socialismo Democrático.
Quando Abril desponta, o abraço do povo, genuíno, contagiou a nação, uniu o momento, as ondas irradiaram rumo a uma mudança profunda, bebemos sôfregos o que nos separava do futuro, do que na Europa era normal e em Portugal um pecado.
Sonhei sempre com uma esquerda que trago agarrada à pele, que se me cola às entranhas, comprime-me o coração, dilata-me as veias, extravasa-me a alma.
Os tempos demonstraram à exaustão, os inchados umbigos esquerdinos, por cada ideal um novo partido, ilumina-se com áurea novo timoneiro. O PS, sacudido pelas duas margens, caminhou fiel ao socialismo democrático, bateu-se em todas as frentes que fazem com que um povo caminhe de pé, educação, saúde e fraternidade social foram bandeiras que elevam o ego e são, ainda hoje, o ADN da nossa revolução.
Portugal é, o cravo ditou, maioritariamente de esquerda mas, a esquerda à esquerda do PS tem andado perdida num emaranhado desunido, muleta da direita durante estes quarenta anos democráticos.
Perdi-me de mim, desgarrei-me, esvoacei no passado, voltei aos porquês, as ousadias não tinham valido a pena, Grândola atraiçoada perdeu o ritmo épico do erguer da nação. Lembro-me, como me poderia disso esquecer, que a nossa esquerda extrema, unida com a direita, derrubou um irmão fraterno. Estes últimos quatro anos regressaram-me, de novo, ao Portugal Amordaçado.
Como premissa para os dados da História: nas eleições que geraram o Governo findo, Passos/Portas, PSD e CDS, concorreram em separado e só depois formaram a coligação.
Às 24 horas do dia destas eleições a coligação morreu, ficam os deputados, os partidos. Por ordem decrescente de votação: PSD, PS, BE, CDS, PC, Verdes e PAN.
O Presidente, mesmo não sendo o de todos os Portugueses, convidou, para formar Governo, o partido mais votado, neste caso, o PSD. Sabemos, pela coligação perfilada, que cairá no dia em que se apresentar à Assembleia, que manda.
Porque denota táctica política, não fazerem parte do governo, o PCP e o BE ficam à espreita, parecendo esperar um momento. Realcemos o positivo, deram um passo diferente. Resta-nos, a nós e a eles, o orgulho do acontecimento.
Seguir-se-á o próximo Governo de Portugal, o Governo da Esperança, o Governo de Esquerda para o qual Abril deu o pontapé de saída. Assisto, de alma cheia, em vida, à mudança impensável mas desejada. Vai ser como Renascer…
 
* As feridas provocadas por outra hipótese serão insanáveis, a níveis políticos, económicos e sociais