Rentes de Carvalho

Mercê do talento de Francisco José Viegas o escritor Rentes de Carvalho logrou nos últimos tempos maior reconhecimento e consequentemente valimento. Pode-se objectar a este entendimento o facto do autor ser dono de obra extensa, ter jornadeado em várias paragens do Mundo onde jornaldeou e escreveu em diversas revistas, além de ter ensinado literatura portuguesa na Holanda. Mantenho a opinião acrescentando também o fugaz deputado e secretário de Estado da Cultura ser, em parte, responsável por se lhe ter agregado luminosa auréola de transmontanidade agregada ao facto de quando vem a Portugal estanciar em Estevais, aldeia sita no concelho de Alfândega da Fé. Não vou discutir a bondade da agregação, a mim parece-me um exagero, sendo provável ele não desejar a adição na justa medida de a sua trajectória de cidadão do Mundo ser afectada por um qualquer regionalismo, mesmo maravilhoso que seja, ainda que proveniente de um reino eivado de torgos semeados no meio de mil fraguedos. A convicção de Rentes de Carvalho não apreciar a etiqueta mais se me adensou após a leitura da entrevista dada a Céu e Silva na primeira semana de Agosto. O jornalista é experimentado no género, no entanto, desta feita a entrevista saiu-lhe frouxa, chocha, deslavada, não sei se a causa esteve no facto de a «patroa» do café onde foi no intento de aconchegar o estômago lhe ter dito não existirem pitanças para o efeito. O também biógrafo Céu e Silva ribatejano de Alpiarça derreado devido ao sol tórrido, esfomeado ao formular as perguntas não deve ter empregue a energia necessária porque as respostas ensonadas do entrevistado deixaram perceber uma grande saudade no sentido pascoalino do conceito pela Holanda, acrescido de algum fastio relativamente à aldeia tão benquista por Telmo Moreno. O leitor isento de paixão mas amante do terrunho Nordestino faça o favor de ler a referida entrevista a fim de aquilatar se existe ponta de exagero no comentário que à mesma aqui verto. Retenho a tentação de emitir opinião acerca das últimas obras do entrevistado, do narcísico diarista como é comum a todos os guardadores de acidentes e incidentes que preenchem o seu dia a dia, prefiro enfatizar o recolhido na entrevista expressa um maior anseio de ser grudado aos Países Baixos do que à denominada Alma Transmontana. O que não deve admirar, muito menos preocupar pois o terrunho agreste, o repórter não logrou comida, certamente, porque esqueceu o modo de a pedir, é a antítese do sentido do provérbio: quem o alheio veste, na praça o despe. Assim continue.