Riscar o Fósforo…

Chegamos ao ponto, talvez, felizmente, de não retorno. Eis-nos, de novo, nos inícios de Abril. Ao longo destes eternos quarenta anos de democracia o mundo girou, as mentalidades arejaram, os trabalhadores produtivos transfiguraram-se, a ciência evolui, Portugal arrancou e os portugueses sonharam.
No entanto, os engulhos levaram-nos ao tropeço, as angustias foram crescendo, as desilusões agigantaram-se, o aviltamento subiu de grau, as forças afrouxaram, os braços caíram e o desânimo arrancou-nos a vontade do rir.
Certo, mais que evidente, que já não sabemos viver sem liberdade. Ela faz parte de nossas vidas mas esquecemos, de tão natural, que se trata de uma conquista do cravo, dos capitães que por nós lutaram, do Soares e Cunhal que, com amputação de metade da suas vidas, nos devolveram a vida de corpo inteiro.
Cedo, muito cedo, fomos assistindo ao assalto ao poder, o partido comunista infiltrou-se em todos os centros de decisão com capacidade de bloquear. Os sindicatos colados ao sector público tornaram-se braços armados de tentáculos de um polvo com sede hegemónica de uma qualquer ditadura do proletariado. A tensão politica, ao rubro, esfriou com o levantar do povo, o vozeirão do Não ecoou na fonte luminosa e Soares subiu ao degrau que apenas os grandes estadistas conseguem alcançar.
Agora, com a capacidade que todos temos de voltar atrás, somos capazes de perceber que pouco conseguimos fazer com a Liberdade que nos foi oferecida, após corrimento do sangue, suor e lágrimas de muitos que moram no mundo do esquecimento. Com a Liberdade, como arma, destruímos o carácter de muitos, humilhamos os frágeis, trepamos a postos de trabalho sem méritos, catapultamos os inúteis, elegemos os Judas.
Sem visão, navegando sem bóias no imenso mar da ilusão, fomos capazes de um triste truque de circo barato: aceitamos o regresso das antigas Famílias do Regime do ditador Salazar mas a essas somamos outras, muitas outras, imergidas do repugnante desnível social.
A Igualdade, prometida mas não alcançada, nunca alcançada e com fosso em contínuo alongamento, minou a democracia, afastou o povo dos políticos, aviltou as necessidades sociais básicas, potenciou classes profissionais de elite, as Corporações, com direitos e deveres de excepção absurdamente diferentes da esmagadora maioria das outras classes profissionais.
Porque a esquerda à esquerda do PS se auto excluiu da governação fomos abandonados ao triste destino de um arco de governação que nos trouxe até aqui. E agora, nas mãos de uma coligação de direita, despida de solidariedade, ausente das gentes e do Portugal profundo, de braço dado com o poder económico e financeiro, chegamos à exaustão.
Felizmente, num extasiante golpe de rins, sob a batuta de um Costa conciliador, a esquerda global acordou para os portugueses, enterrou o passado que não volta, uniu-se para o futuro em confronto com uma direita tirânica defensora dos mercados em detrimento da vida de todos nós.
Se por alguma réstia a História espreita este Presidente, Cavaco, e uma vez que colocou uma acendalha no seu triste discurso, resta-lhe não se atrever a Riscar o Fósforo…