Roído por dentro…

Dizem, quem o conheceu, que o Zé Tolas, o surdo-mudo da aldeia, filho da Tia Beatriz e do Ti Anacleto, seria talvez o rapaz mais esperto da sua criação, naquela aldeia perdida no majestoso e imperial vale da Vilariça, candeia acesa em noites de luar. Segundo contam os que com ele comunicavam, o primeiro e único dia de escola foi o cortar de pernas, o desabar do mundo, o esfumar infantil, o ruir do nascimento, o adeus ao futuro, aos amigos e á aldeia. Meta de partida para isolamento total.
A alcunha, bem colada, demonstrava a ironia de um povo, de uma comunidade, de uma aldeia, reconheciam-lhe mérito intelectual mas tratavam-no por tolo. Zé teve alguns amigos, de peito e afectos: seus pais, três cães e o professor Nando, que o visitava regularmente vindo da sede do concelho. Os pais, tristes pais, não tinham meios nem conhecimentos para lidar com tamanha desgraça. Fisgas, Malho e Candeia, dois cães e uma cadela, foram o suporte de vida, amigos de verdade. O professor Nando foi travão enquanto pode e conseguiu, sabia que o dia ou noite chegariam e nenhum meio ao dispor para o evitar. Zé esfumou-se numa bela noite de Agosto, perdura entre os astros mas esventrado, minado por dentro, com tudo para dar e sem nada para receber.
Existe um povo, minúsculo, com obra planetária, desbravador de águas, encontrador de caminhos, unidor de gentes e, perdido na imensidão de que foi senhor luta pela sobrevivência. Sua História relata paternidade soberba, Rei Hercúleo, traçador de objectivos, fixador de metas. Fomos atrás de outros, através de séculos, limpando suores, abrindo pulmões ao riso, apertando a alma, mas sempre com o futuro ali na frente, a faiscar no horizonte. A Europa, a quem emprestamos o bico mais ocidental, nossa actual mãe, é madrasta de muitos filhos, tratadora desigual, com preferências, de eleição.
Mas nós, dobradores do Cabo das Tormentas, pequena nau nos ondulares que magoam, temos navegado à deriva, sempre à bolina, às arrecuas. Todos juntos, da direita à esquerda, desde o início, desde a Bendita Madrugada, fomos capazes de construir, durante quarenta anos, uma democracia de fraude, trocamos apenas uns por outros, esmagando mais uma vez, os mais falados, os desfavorecidos. A esquerda da esquerda, que sempre se pôs de lado, pensando que nada tem a ver com o sucedido, foi a que mais contribuiu para colocar no poder a direita que tanto diz odiar.
O sindicato CGTP. do lado do Sector Publico, de quem depende para sobreviver, braço armado do PCP, foi um dos colaboradores mais nefastos para a destruição da economia portuguesa pois é clamorosa a sua não adaptação aos tempos. Os trabalhadores do Sector Privado, votados ao abandono, contingente absoluto dos seiscentos mil desempregados, é prova do gigantesco fosso social a que foram votados nestes quarenta anos democráticos.
Como nunca é tarde demais a Nau está em alto mar, nós vamos a bordo. A Europa habituou-se à nossa surdez-mudez mas o Almirante é destemido, tem algo na Tola. A tripulação está enjoada, desnorteada. Os problemas lançados para a praça pública fazem o jogo dos outros, o jogo dos que estão do lado errado da Europa.
Votos para que não aconteça a este Governo Histórico o que aconteceu ao Zé Tolas, Roído por dentro