Ronaldo e o Microfone da CMTV

Com toda a certeza, não serei a pessoa mais isenta para comentar o recente episódio do microfone, protagonizado por Cristiano Ronaldo, em França, durante o passeio matinal antes do Portugal - Hungria: em primeiro lugar, porque sou fã incondicional do craque português (se tivesse idade, seria uma das figuras mediáticas a quem “mendigava” um autógrafo); depois, porque nutro um enorme sentimento de desprezo pelo órgão de comunicação social a quem Pedro Marques Lopes, conhecido comentador político da SIC Notícias, designou, in Eixo do Mal, “esgoto a céu aberto”.
Contudo, faltando-me esse distanciamento emocional para “arbitrar” a contenda, é possível, num exercício mental frio e ponderado, perceber de que lado está a razão, tendo em conta que o debate em torno do assunto se centra na fronteira entre o “interesse público” e “direito à privacidade”, que, em meu entender, é perfeitamente delimitada.
Do que é público, Cristiano Ronaldo sempre manifestou a vontade de manter em segredo a identidade da mãe do filho e a protecção da vida privada da restante família. No entanto, o “jornalismo de sarjeta”, para satisfazer a clientela voyeurista, com um voraz apetite para o escândalo, por sangue, pelo sórdido, pela fofoquice e pela maledicência, nega esse direito alienável ao capitão da equipa das quinas, utilizando o estapafúrdio argumento do “interesse público”.
Porque não sou leitor, nem ouvinte, nem espectador de um tipo de jornalismo que representa o grau zero da actividade informativa, assente no propósito do vale – tudo, o meu conceito de “interesse público” não pode ser outro senão aquele que salvaguarda o respeito à privacidade e ao bom - nome de quem os requer. E quando tal acontece, estamos apenas a respeitar a vontade do Outro; um gesto que, fazendo de nós pessoas civilizadas, entronca num dos mais elementares princípios da convivência em sociedade.
Assumido adepto da decência e do decoro, interessa-me saber, no caso em apreço, não a vida privada de Ronaldo, mas que ele tem tanto de bom jogador como de boa pessoa: nos relvados, é recorde atrás de recorde. É de um profissionalismo inigualável, trabalhador, numa constante superação de si mesmo, honesto; pelo que o mais digno representante da diáspora lusa. Fora do rectângulo de jogo, é um ser humano com um coração enorme: bate todos os recordes de generosidade, abraçando inúmeras causas solidárias, custeando um sem – número de operações cirúrgicas de pessoas por esse mundo fora. Tendo origem numa família humilde, nunca a negou, apesar de ser uma estrela planetária.
Se me perguntassem, pois, se reagiria da mesma forma às provocações a que Ronaldo tem sido sujeito por parte do famigerado meio de comunicação social (num contexto em que, pelo crime de devassa da vida privada, o ultrajante foi condenado em tribunal por mais do que uma vez), a resposta era sim. O caso mudaria de figura, se alguém associasse uma falha minha à condição de alcoólico do meu progenitor (não estando ele já entre nós), como fez o miserável colunista do “El País”, John Carlin, referindo-se à atitude de Ronaldo (de atirar o dito microfone para o lago), considerando tal gesto o reflexo desse drama familiar: provavelmente, não seria o jornal a mergulhar nas profundas águas do lago, mas, se a situação se proporcionasse, o autor do lixo jornalístico.
Nesta altura do campeonato, o ideal seria que todos nós nos concentrássemos nesse desígnio que nos une e mobiliza. A final está cada vez mais perto. O mais virtuoso e solidário futebolista do mundo, Ronaldo, apesar da pressão, do peso de uma nação em cima dos ombros, das críticas injustas e das provocações, proporcionar-nos-á a doze certa de Ketchup que nos permitirá atingir a Glória.