Roteiro inesiano

Deu Mensageiro de Bragança, nas páginas centrais da edição de 13 de Junho, o devido realce a uma sugestão do presidente da Câmara Municipal, A. Jorge Nunes, na sequência da apresentação do meu romance A Casa de Bragança: a criação de um roteiro inesiano.
Apoiado em documentação histórica, alguma no Arquivo Distrital, que transcrevo, mostro como, em vários momentos, D. Pedro se interessou pelos naturais de Bragança, vila onde casou em 1 de Janeiro de 1353, concluo eu. Na Crónica de D. João I, Fernão Lopes duvida da palavra do rei, que isso mesmo declarara, e fizera exarar, em Junho de 1360, em Cantanhede, perante a nobreza; e duvida, porque estranha que o monarca não soubesse a data certa de um momento tão importante na sua vida. Pergunte-se à generalidade dos casados se assim é; sobretudo, estranhe-se que Fernão Lopes ignorasse a grande indiferença ao tempo na Idade Média. Interessava-lhe, também, porque, se aceitasse esse casamento, teria de defender como rei, não o seu futuro D. João I, mas o meio-irmão D. João, mais velho, em nome do qual aquele se dizia «regente e defensor do reino». Ou seja: o mestre de Avis não usurpava um lugar que reconhecia pertencer ao segundo filho do seu também pai, D. Pedro.
Este D. João de Portugal e Castro é a principal novidade do romance. Já lá vamos. Por agora, estamos no casamento de Pedro e Inês, reconhecido por cada vez mais historiadores (ou, pelo menos, não liminarmente negado), que a tradição diz ter-se realizado na igreja de São Vicente. No tomo I das Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, Francisco Manuel Alves cria, todavia, uma variante: «Casou, pois, o infante D. Pedro, […] com D. Inês de Castro, na cidade de Bragança, não em templo algum, mas na própria casa de habitação, pelos anos de 1353, num dos primeiros dias do mês de Janeiro, sendo celebrante do casamento D. Gil, deão da Guarda e mais tarde bispo da mesma Sé.» (2000, p. 281) A igreja e essa «casa de habitação» ‒ que também é a minha ‘casa’ de Bragança, forçosamente, na cidadela ‒ não seriam incompatíveis. Mas o que importa é um casamento religioso, onde começar o nosso roteiro, ou seja: além de novos estudos sobre o acontecimento, um casal de noivos esculpidos, que atraísse a atenção de turistas e levasse noivos de hoje, ou jovens apaixonados, a fotografarem-se nesse enquadramento. Quem perceber o interesse económico de uma fotografia à mesa de Fernando Pessoa, no Chiado, depressa entende a vantagem de um conjunto escultórico celebrando a união de Pedro e Inês. A par de Coimbra e Alcobaça, entre outras, Bragança entraria no circuito inesiano por excelência, pois «casamento e mortalha no Céu se talha».
Que a então vila foi ninho de amores prova-o filho segundo, D. João de Portugal e Castro. Pedro e Inês tiveram, primeiro, Afonso, morto quase à nascença, entre 1351 e 1354, segundo pareceres diversos. Neste lapso temporal, nascem João, Dinis e Beatriz. Importa aquele, nado nesta cidade, talvez em 1352, cuja ama, Constança Garcia, foi «agraciada pelo monarca em Agosto de 1357 com certos bens em Bragança (nomeadamente, casas, herdades, adegas e um forno de pão)» (Cristina Pimenta, D. Pedro I, Círculo de Leitores, 2005, p. 175), o qual infante deve ter voltado com a ama à cidadela após o assassínio da mãe Inês, segundo Salvador Dias Arnaut, no seu notável trabalho A Crise Nacional de Finais do Século XIV. A Sucessão de D. Fernando (1960). Escrevi que ele acordava às duas e três da madrugada, «aprazando de noite por invernos e calmas; desi cavalgar e correr fragas e montes espessos e saltar rregatos e córregos de grandes cajooões, caindo em elles, e os cavallos sobr’elle», qual reza Fernão Lopes: «Em tanto era querençoso de montes que nunca rreceava porco nem husso com que sse encontrasse a pee nem a cavallo: e de muitos periigos em semelhantes feitos o quise Deus guardar, que contados por meudo seriam asaz saborosos d’ouvir.»
Este homem corajoso, sem medo de porcos e ursos, vai casar com a irmã da rainha, D. Maria Teles, que assassina ‒ embora eu encontre outro punhal no meu romance. Refugiado e, depois, retido em Espanha, passa ao lado de Aljubarrota, vendo seu meio-irmão ser aclamado nas cortes de Coimbra pela lábia de D. João das Regras; na verdade, pela força das armas de D. Nuno Álvares Pereira, cuja filha única vai casar com o primeiro filho de D. João I, Afonso, donde nascerá a Casa ducal de Bragança (1442). Mas isso são outros contos… Agora, interessa D. João de Portugal e Castro, nascido em Bragança, que entrará no futuro roteiro inesiano.
Para não me alongar, terceira nota: Inês de Castro era bisneta do braganção Nuno Martins de Chacim, influente, ele e seus filhos, em tempo de D. Dinis, e cuja arca tumular está na absidíola sul, ou do lado da Epístola, do mosteiro de Castro de Avelãs.
Será que se começa a perceber como é fácil, de folhetos e estudos a representações iconográficas ou escultóricas, reconstruir a presença de Inês e Pedro nesta cidade, onde nasceu D. João, que devera ter sido rei de Portugal?
O neto de D. Pedro, Afonso, seria primeiro duque; D. Fernando, segundo duque, pediria ao primo D. Afonso V, em Ceuta, carta de cidade para Bragança. Assim, no próximo dia 20 de Fevereiro, quando celebrarmos os 550 anos de cidade, bom seria que a autarquia já tivesse olhado aos benefícios que pode tirar da História, aqui sumariada. Mais largo argumento está no romance A Casa de Bragança.