Saudades do futuro...

Saudade, eis a palavra portuguesa mais portuguesa das palavras que o nosso vocabulário, tão rico, pode comportar. Todavia, sem tradução. Porque não se diz a saudade; somente se sente e se vive, e os sentimentos não se traduzem nem são passíveis de quantificação. São o que são, e nada mais.
Revivemos o passado com mais ou menos saudade, ou, simplesmente, sem ela. Revivemos os momentos de felicidade, assim como revemos as tristezas. Rebobinamos os filmes respectivos e projectamos nas nossas mentes uns e outras, com mais intensidade, com menos intensidade, ou com a intensidade que os queremos afastar no presente. Pela natureza dos pretéritos, que podem ser perfeitos ou imperfeitos. E são os últimos que mais nos incomodam. Aqueles que mais quereríamos afastados de nós e das nossas vidas, porém aqueles que mais teimosamente se perfilam para que os revivamos, ainda por cima sentindo-os. Vasculhamos nas arcas do nosso sótão, em busca dos nossos passados. Relativamente a uns, projectamos exclamações, trazidos à tona, imersos que estavam nas prateleiras do nosso inconsciente. E revivemo-los, com mistos de nostalgia e felicidade (ou com felicidade nostálgica), ou com a amargura própria de quem não pode voltar ao passado para refazer o passado. E que, porventura por isso mesmo, a nossa capacidade selectiva os haja afastado do limite da consciência. Relativamente a outros, revivemo-los, simplesmente, perdurados na nossa memória. Com alegria, ou com tristeza, eis a diferença.
Mas não é do passado que eu tenho mais e mais fortes saudades. As minhas saudades são, sobretudo, do futuro. E esse, eu não sei se perfeito, se imperfeito. Perfeito, à partida, porque todos nós ambicionamos o mais e o melhor. O mais e o melhor das nossas vidas e nas nossa vidas. Ao longo da nossa existência, quantos projectos, concretizados uns, adiados outros tantos. E destes, muitos sem concretização possível, porque o tempo não nos deu tempo, não teve connosco contemplações. Não andou, correu; não correu, voou. Enquanto jovens, não desejávamos ser velhos, muito embora, curiosamente, todos aspirássemos a sê-lo um dia. Enquanto velhos, todos desejaríamos regressar à juventude. Mas não é a juventude que me inspira mais saudades. É, justamente, a velhice que já não viverei. Porque já não terei tempo para viver mais, fazer mais. Já não terei tempo para projectos adiados. Já não terei tempo para assistir ao crescimento dos que me foram sucedendo, sobremaneira porque futuros incertos os seus. E cada vez mais. Cerrarei os olhos pela derradeira vez antes que os veja maduros, caminhando os seus destinos, vivendo o seu futuro. E é desse futuro, mais do que qualquer outro, que eu começo a ter saudades. E saudades que me inquietam, porque a incerteza me inquieta.
Escrevo segundo a antiga ortografia.