A SENHORA

Apesar da atrofia provocada pela viva vivência noutras paragens, acrescida das convulsões teleológicas de continuada formação da finalidade dos objectivos, no rol das afinidades electivas referentes a Bragança, a Senhora – das Graças – no altar dos afectos, está no centro. No registo da meninice, o Senhor São Pedro de Lagarelhos ocupa lugar semelhante.
No percurso trilhado nesses anos as festas em honra da Santa davam-me dupla celebração, a convivial, tão escassa, com a vinda de familiares chegados a proporcionarem-me o encontro de mim mesmo, a da farândola em face das variantes do programa. A consulta de um programa dos finais dos anos cinquenta dissipa dúvidas, se persistirem consultem o Arquitecto Manuel Ferreira figura central na concretização de ideias a elevarem as Festas à condição das melhores da província, assim o clamávamos afugentando aos gritos os duvidosos da nossa certeza. Se eu, rapazelho de treze ou quinze anos retive imagens e palavras patuscas, ridículas, arrogantes, serenas, vanidosas, elegantes, grosseiras das principais personagens de então em busca da saliência, o Arquitecto viveu-as por dentro, conseguindo na maioria das vezes aguentar os espirra canivetes grávidos de balofa importância. Os festejos entre preparativos e o levantar do carrossel e da pista dos carrinhos duravam quase um mês, uma autêntica bródio no burgo barrado pelo isolamento, quebrado no Verão pela triste aglomeração de ceifeiros encardidos, as ridentes verbenas e os jogos de hóquei em patins reveladores de histrionismos diferentes dos do futebol. Se lembrarmos a configuração da assistência logo percebemos a diferença.
A centralidade do Jardim da República elevava-o a palco privilegiado das Festas no plano cívico, no religioso os sermões nocturnos proferidos na Igreja de Santa Clara levavam ao atravancamento da rua pois os oradores além de Mestres na arte da entonação e intonação, fundamentalmente, tocavam nas feridas sociais levando relapsos à prática religiosa a ouvirem-nos sem fastio. No dia 23, a cidade acolhia milhares de forasteiros, de todas as condições, até carteiristas. Se nos dias anteriores a excitação acelerava, no grande dia até os inimigos da água parcimoniosamente a gastavam a lavar a face, davam um toque na melena e vestiam roupinha de «ir ver a Santa».
Após a procissão, o encontro profano. O rapazio bebia laranjada, pirolitos, viajava nos cavalinhos, os donos de moedas derretiam-nos a fazerem chispar os carros eléctricos embatendo-os uns nos outros. Era a Festa!
Armando Fernandes
PS. Estimado Arquitecto: Abra o saco das Festas. Conte as dificuldades na afirmação de actos culturais