Simpatia, ou empatia?...

Desconfio dos simpático, para confiar no empático. Aquele chora quando choramos, porventura lágrimas doces, dos olhos caídas, que não do coração. Pode abraçar-nos nas horas amargas, na esperança de que estas pouco permaneçam, logo nos abandonando se estas permanecerem. Desaparece quando mais precisarmos, sem que saiba se dele precisamos. O empático é aquele que, sem precisar de chorar connosco, nos consola nas horas infelizes, a nosso lado nos fazendo ver e crer que está, incondicionalmente, sentindo e vivendo os nossos problemas como se dele fossem, como nós os sentimos e os vivemos. É aquele que vê o mundo como nós o vemos, capaz de se sentar no lugar em que nos sentamos, (a)palpando o nosso sofrimento como se seu sofrimento fosse. É aquele que não precisa de nos dizer muito para muito nos dizer, poupado nas palavras, abundante nos gestos simples e significativos, nos actos discretos que nos subtraem ao fundo da mágoa, da tristeza, do infortúnio.
O simpático segue a norma instituída; o empático institui a razão. E entre a norma (ou a lei) e a razão, esta eu prefiro. A razão tem leis que a lei não conhece, e a lei tem razões que a razão desconhece. A norma social, rígida, somente pelos sem mérito é facilmente aceitável, na medida em que segue (e prossegue) princípios que são gerais, incapaz de validar o particular. O particular somente os bons corações são capazes (ou mais capazes) de perscrutar no outro que sofre. Em boa verdade, a norma, enquanto princípio geral, pode nada dizer ao coração, mas a este não escapa o peculiar. Porque somos diferentes entre iguais, embora iguais entre diferentes. Nem sempre os princípios gerais têm aplicabilidade útil no que é particular. Ninguém conhecendo ninguém, importa que cada um conheça minimamente o outro, para o socorrer naquilo que ele precisa quando precisar, em si mesmo e na sua circunstância. E, tantas vezes, é no insignificante aparente que reside a solução, não no aparentemente relevante. A própria razão se equivoca tantas vezes, ao buscar no mais profundo do vale aquilo que, afinal, se mostra claro no cimo da montanha, à solta na superfície, não escondido no íntimo mais íntimo, no âmago dos âmagos. Gestos simples de empatia são infinitamente mais ricos do que complicados rituais de simpatia, mormente quando provindos daqueles que nem simpáticos verdadeiros conseguem ser. Na simplicidade se (re)conhecem os que são grandes na amizade autêntica e na autenticidade da amizade. A riqueza da amizade reflecte-se na limpidez do que é sincero e prestável, sem esperar recompensas para lá daquela que é a felicidade por ser útil. O único traço válido na verdadeira relação interpessoal cabe no círculo que se imprime com centro no desinteresse por qualquer interesse, proibindo a mesquinhez e a futilidade de fazerem a imagem de marca de qualquer tratado, formal ou informal, entre pessoas.
Escrevo segundo a antiga ortografia