Sobre a crise

A crise económica e financeira ameaça agravar o Outono Ocidental em que nos precipitaram governos afastados das necessidades dos povos que lhes aconteceu governar. Um dos acontecimentos mais inquietantes dos crescentes cortes de confiança entre os governos, que também neste domínio sofrem os contágios da globalização, foi a surpreendente revelação de Wikileaks ao tornar públicas as tensões entre os Estados e os atores da Web, como ali evidenciaram Thomas Gomart e Julíen Nocetti, embora o conflito possa ser definido invertendo a ordem dos envolvidos. A questão, para além do conteúdo dos documentos, o que agrava é a falha de legitimidade de exercício frequente dos governos de que a própria democracia dispõe. Este é um dos factos mais graves da inquietação para a confiabilidade dos jovens nos governos, na sustentabilidade da Declaração Universal de Direitos do Homem, feridos pela distância entre a política declarada e a política seguida, e desvendada por denúncia igualmente violadora da legalidade. Por agora fala-se já na revolta da juventude contra os usos, costumes, carências, e enganos.
 
Provavelmente esta é uma das razões que levou investigadores e comentaristas a teorizar sobre as condições necessárias ao state-building ou nation-building, com a dificuldade de encontrar modelos que evitem os abusos dos existentes, e dificilmente de acordo sobre um modelo globalizável, salvo no uso da qualificação democrática. Não obstante expressões imaginosas, como a de Mandela ao falar na Nação-Arco-Iris, ou dos construtores da União Europeia ao proclamarem a “união na diversidade”, o certo é que, pelos caminhos das organizações transnacionais surgem manifestações de soberanias irreconciliáveis em evolução sem bússola, que produzem uma situação dificilmente não confundível com a anarquia, ou uma instabilidade que se diferencia claramente da paz civil, com o complexo militar-industrial, sobretudo nos países pobres, a ganhar clientela, lucros, e perdas de homens ou crianças que não constam das listas dos mortos em combate.
 
Alguns falam num mundo que é préwestefaliano, parecendo referir-se sobretudo às áreas que o anticolonialismo libertou, deixando apenas recordações do poder absoluto, e nenhuma das divisões dos poderes do Estado, da importância das constituições, e do respeito pelos direitos do homem. É por isso que casos como o da Síria não podem ser avaliados pelos padrões ocidentais, que não distinguem as crenças nos combates entre os adversários, usando métodos experientes da separação entre a Igreja e o Estado. Podemos todavia reconhecer que os jovens de todo o mundo sofrem os mesmos cruéis condicionamentos do globalismo, que a todos submetem à desordem económica e financeira, à falta de futuro feliz, num mundo pacífico e melhor.
 
Não chega, para os aproximar, ou para os tornar semelhantes por áreas culturais, a submissão aos mesmos festivais musicais, à mesma produção cinematográfica, que também não são suficientes para apagarem as especificidades locais, os mitos raciais, a passada submissão colonial de geração em geração. Países velhos, que participaram eventualmente na hegemonia do Império Euromundista que a última grande guerra destruiu, parecem inesperadamente serem eles os contagiados pelas insuficiências governativas das áreas culturais diferentes que dominaram, e, para responder a tal situação caótica, e em plena crise, não podem evitar tentar responder à questão de saber se o Estado ainda é a forma de governar para este século sem bússola, e a resposta mais aceitável é possivelmente a de não dispensar o Estado suficiente, a medida que dispensa discutir entre ter um Estado excessivo ou um Estado mínimo, sobretudo quando a pergunta é feita num respeitoso ambiente orçamental.