Sublime…

Nasci em terras de milho e vinho verde em tempos de novos respirares, imediatamente após os finais da tenebrosa segunda guerra mundial. Transporto na pele, fazem parte de mim, as aragens de quietude que o interior do país oferece. Lá, em Felgueiras do meu tempo, a vida era airada para os miúdos de calções pois, tal como para os pardais, a liberdade era total. Quando a desilusão se apodera de mim busco elixir ao recordar as calmas que esses tempos proporcionaram.
Os trambolhões da vida transportaram-me para outras paragens de adopção. O Porto que amo moldou-me a juventude, deu-me a bagagem e a energia para o levantar do voo. Aterrei nos confins do Alentejo, ondulei nas searas, cantei por cima do vento descomprimido pelos inebriantes eno-vapores que por ali habitam. O Douro, paixão de meu pai, é conto de fadas das férias grandes intermináveis que povoam o imaginário que me recuso a apagar.
Vivo em Lisboa e agora na borda atlântica a caminho do Sul. Ouço e sinto o mar por entre as noites quietas, o ribombar das ondas trespassa a falésia trazendo até mim, algumas vezes, os sabores salinos daquele monumental mundo aquático. Durante a Primavera e Outono percorro a praia sentindo-me homem do leme em proa de barco carregado da paz que todos ansiamos.
Mas o sítio do afago, os trilhos que me acalmam, os odores que me fortalecem, os ondulares que me adormecem, os multiverdes que extasiam, a quietude que me abraça e a paz que me equilibra, encontrei tudo isto para lá da imponente serra, para lá dos rijos granitos, no Trás-os-Montes que sinto como ventre materno, oferta graciosa de minha mulher de sempre.
Há muito que lá não ia. Agora, por altura da Páscoa regressei aos meus montes e vales. Devido ás portagens tracei outro percurso, viajei pelo outro lado da Serra, por Seia e Linhares da Beira, deixei para trás Celorico e, graças ao IP2, num pulo estava na enorme enseada criada pela barragem da Foz do Sabor cujas águas engoliram a majestosa ponte dos Peixeiros e o que restava dos Restaurantes Miguel, do lado de Alfândega, e Lino, do lado de Moncorvo. Lembro-me do passado e não desgosto do presente pois vislumbro o futuro. Aqui, neste gigante nó, rodeado de soberbas montanhas rochosas estamos num lugar mítico pois que dois rios carregados de história olham-nos dos confins dos séculos e penso que se riem pois desconfiam que os que para eles olham desconhecem as tormentas que passaram para chegarem até aqui. Continuo a subir com a ajuda do IC5 e num segundo estou na cova mais linda, num pocinho de azeite como os antigos o nomeavam, Sendim da Ribeira. No dia seguinte bem cedo nos pusemos a caminho, caminheiros destreinados mas assumidos e com neto ás cavalitas de todos. A meta era planeada, íamos verificar o desaparecimento, por imersão, da horta das Salgueiras, parte do  sustento  de meus sogros durante a sofrida mas feliz vida. De repente, após curva com densa vegetação surge o paraíso, amplo, azul, espelhado, fresco, misturado com os mais sublimes verdes que conheço. O regaço da barragem do Baixo Sabor, fecundado pelas hercúleas águas do lendário rio português, escultor secular de arrepiante leito, deu inicio ao tecer espraiado daquela que virá a ser uma das mais belas bacias de água doce de Portugal.
No meio do mais absoluto sossego, enterrado numa genuína aldeia de Alfândega da Fé, assisto mudo e atónito ao eclodir de uma nova vida, sinto o beber destas terras sedentas numa sofreguidão sem limites. Está feito, o milagre deu-se, Sublime…