A Tinização da Sociedade Portuguesa

 
No rescaldo das últimas eleições presidenciais, assisti a uma empolgante e animada conversa de café entre duas pessoas que apenas conheço de vista. Tendo ambas concordado que o acto eleitoral em apreço era de uma enorme importância para o futuro do país, por se tratar da escolha do mais alto magistrado da nação, não conseguiram aceitar que o popularucho Tino de Rans, “que mal sabe falar”, tivesse conseguido um honroso 5.º lugar. A desilusão era tão indisfarçável, que um deles verbalizou o estado de alma nos seguintes termos: “Não sei se me apetece viver neste país!”
Não sei se aos meus ilustres conterrâneos lhe servirá de consolo saber que também a mim me faz confusão que os resultados eleitorais, no seu conjunto, não tenham reflectido o verdadeiro valor político dos candidatos. O que nos divide, provavelmente, não é a causa que provoca o “dano”, mas a forma como esse “dano” é encarado e digerido. Ou seja, o meu pessimismo é mais contido. Experimentando o mesmo desencanto, contudo, jamais seria assaltado pela dúvida de qual é o país em que quero viver.
É natural que nos sintamos incomodados por saber que neste país, com uma Democracia consolidada, mas num momento político tão delicado, onde as certezas não são muitas e nada é garantido, o cargo de Presidente da República seja tão vulgarizado e desprestigiante, ao ponto de poder ser ambicionado, qual capricho, por quem, e sem qualquer desprimor, estará apenas habilitada a gerir a sua modesta freguesia.
Tentar explicar estes fenómenos marginais com base na tese de que os portugueses não confiam nos partidos políticos, partindo do princípio de que eles são a causa da degradação da Democracia, é condicionar e negar essa mesma Democracia. Pois que o encanto deste regime político com a bonita idade de 42 anos é precisamente o de reservar lugar ao respeito pela opinião contrária à nossa, reservar lugar ao ridículo, ao surreal e ao inimaginável.
E é nestes valores que cabem os sonhos do calceteiro mais mediático de Portugal. São os tais “15 minutos de fama”, para os quais não contribui, mas a que o artigo 122.º da Constituição da Republica Portuguesa não se opõe, mesmo sabendo que o candidato em causa “teria dificuldades em passar no exame da antiga 4.ª classe”, como diria José Manuel Fernandes, jornalista e comentador político.
Para mim, a quem o fenómeno da tinização da sociedade é algo que me deixa perplexo, mas que com ele convivo pacificamente e sem constrangimentos emocionais, seria impensável viver noutro país que não o meu, porque, apesar de todos os defeitos que lhe possamos apontar, nele a Democracia funciona, os actos eleitorais decorrem com extremo civismo, e o respeito pelos resultados dos mesmos, independentemente da natureza da eleição, é algo de que nos podemos orgulhar, não fossem eles a expressão da livre vontade do povo.