A tragédia grega

A questão da Grécia está muito complicada e vai ficar pior. A razão dessa situação é evidente mas também ignorada. O motivo é que ninguém está realmente a discutir a questão da Grécia. Nem os governos gregos –o actual de extrema-esquerda como o predecessor de centro-direita ou o anterior a esse, de centro-esquerda–, nem a União Europeia, nem a esmagadora maioria dos jornais, discursos e conversas, realmente discutem a questão da Grécia- Por isso, não só não se resolve, mas fica sucessivamente pior.
O problema da Grécia é antes de mais grego. É nas empresas e famílias gregas, nas políticas, pressões e interesses gregos que há que procurar as causas e administrar os remédios. Isto não exime de responsabilidades os parceiros europeus, não só porque só existem perdulários se houver financiadores, mas também pela elementar dignidade, que exige compreensão e ajuda aos males alheios. Mas centrar as queixas na actuação dos bombeiros, como tem sido habitual, ignora as causas do incêndio. Mas é isso que tem ocupado a maior parte das análises sobre a questão.
Este facto, por paradoxal que pareça, é evidente a quem quer que observe, de forma serena e objectiva, esses debates e análises. A primeira coisa a notar é que a generalidade dos intervenientes nesse diálogo está zangada: a conversa é quase sempre entre pessoas enfurecidas. Isso pode ser compreensível, mas é muito prejudicial ao rigor, perspicácia e discernimento dos analistas.
Em consequência as considerações à volta do problema grego andam envolvidas em elaborações poéticas, cheios de heróis e vilões, vítimas e castigos, promessas maravilhosas e desilusões brutais. O problema económico-financeiro grego mais parece uma epopeia romântica ou tragédia cénica que negociação creditícia envolvendo problemas políticos e empresariais. É assim há muitos anos, aliás há mais anos do que a maior parte das pessoas vivas se consegue lembrar. Agora, todo o circo mediático à volta da vitória retumbante do partido extremista Syriza e dos seus fascinantes dirigentes, agravou fortemente a emoção.
O alvoroço é, em si mesmo, negativo, por desperdiçar recursos, desvia resforços, ofuscar realidades. Qualquer observação serena mostraria que os compromissos que elegeram o partido do primeiro-ministro Tsípras são simplesmente insustentáveis. Qualquer reflexão objectiva descobre que a retórica está a milhas da realidade. Mas as pessoas acreditam mesmo em promessas e ilusões, o que terá consequências terríveis sobre os novos dirigentes gregos. Hoje vistos como super-heróis, passarão em breve a super-vilões ou super-vítimas. Por isso a questão grega está muito complicada e ficará pior.
A história inclui, porém, ainda uma possibilidade animadora. Vindo do extremo, livre de favores e interesses, o Governo pode finalmente fazer as transformações que o país precisa. Ela depende crucialmente de os novos governantes entenderem o problema como grego. Talvez seja esperar demais, mas é a única alternativa positiva neste terrível drama.