As trapalhadas de Passos e Portas

A carta de demissão de Vítor Gaspar provocou um terramoto no governo e abalou os defensores da política de austeridade. Quem alguma vez imaginou ver o principal defensor das virtudes da austeridade e seu entusiasta praticante ao longo de dois anos reconhecer que falhou em toda a linha? Embora ele não o tenha dito, está implícito que, por causa da incompetência e teimosia dele e do primeiro-ministro, Portugal vai ter de pedir um segundo resgate, o que significa que os sacrifícios que fizemos foram inúteis. Quem não se lembra das certezas do ex-ministro das Finanças sobre a bondade da receita, proclamadas em monocórdico monólogo sem direito a contraditório? Que nos sirva de lição: uma coisa são os modelos teóricos aprendidos na Universidade e outra, bem distinta, é a sua adequação às distintas realidades.
O PS bem avisou. Desde logo, que era um erro “querer ir além da troika”. Desde o início do programa de assistência financeira e a propósito das sucessivas alterações, o Secretário-geral do PS António José Seguro alertou para as consequências negativas da política de austeridade e nada mais que austeridade e para a necessidade de se promover o crescimento económico, sem o que Portugal não vai conseguir reduzir o desemprego e sair da crise. A carta do demissionário ministro não reconhece apenas o falhanço de dois anos de governo. Vem confirmar o que se suspeitava: não há liderança nem coesão no seio do governo. Conclusão que o pedido de demissão de Paulo Portas veio confirmar. Os líderes dos dois partidos da coligação governamental não dialogam e não se entendem e, quais meninos mimados, trazem para a praça pública os seus arrufos, provocando uma grave crise política. Durante mais de uma semana, o país assistiu perplexo aos vários episódios de um mau folhetim, baseado num mau guião, escrito a quatro mãos por Vítor Gaspar, Paulo Portas, Passos Coelho e Cavaco Silva. Independentemente dos capítulos que se seguem, o resultado é desastroso. As desavenças entre os dois líderes já custaram ao país muitos milhões de euros em juros e prejudicaram a imagem externa de Portugal. Antes da crise, já a maioria dos portugueses não confiava no governo e desejava a sua demissão, depois do lamentável espectáculo que conduziu à crise, o governo ficou ainda mais fragilizado e Passos Coelho e Paulo Portas completamente desacreditados. Ao voltar atrás na demissão “irrevogável” em troca de uns quantos títulos, Paulo Portas hipotecou a sua honorabilidade pessoal e política. E Passos Coelho perdeu toda a credibilidade. Tal como nos divórcios, que em que os cônjuges disputam um património significativo, também eles, por apego ao poder, decidiram manter-se juntos em coabitação instável até à próxima desavença. Alguém de bom senso acredita que um governo moribundo se vai aguentar ligado à máquina? Enquanto o Presidente da República arrasta uma decisão, Berlim e Bruxelas antecipam-se a dar a bênção à solução de continuidade, numa clara desvalorização da única pessoa a quem a Constituição confere o poder de decidir. Para a direita europeia o que importa é continuar a contar com um governo submisso que não conteste nem questione as orientações da troika. O que pode ser bom para os mercados, mas não é necessariamente bom para os portugueses. Mais do mesmo significa mais sacrifícios sem resultados. A não clarificação da situação através de eleições significa adiar o problema. Quanto mais tempo durar este governo, pior.