Trilogias: do passado ao presente

Décadas atrás, um século quase, defendia o regime então vigente a trilogia Deus, Pátria, Família, a que alguns acrescentariam, posteriormente, Autoridade, Trabalho. Anos volvidos, por efeito de uma certa epidemia de revolucionarite instalada, todos os elementos foram torpemente ridicularizados. Deus foi arredado das vidas, dos pensamentos e dos corações, cedendo a um materialismo agrilhoante, à futilidade, sentimentos tornados metálicos, mais facilmente conjugado o verbo ter do que o ser. A Pátria perdeu o seu cariz de elemento cimentador de união e solidariedade, estilhaçando-se em pátrias de interesses pessoais, comezinhos e egoístas, cada um por si e os outros por mim, alcance de fins abjectos por via de abjectos meios, um mundo de direitos sem deveres. A Família, célula da vida, fez-se célula sem vida, bolas coloridas de sabão que logo rebentam, ligações fugazes e levianamente multiplicadas, legos desestruturados e espalhados pelo chão, envolvida em novos usos aberrantes descidos abaixo do animalesco, a coberto de leis imbecis que imbecis talharam, por força de poderes desmiolados.  A Autoridade cedeu o passo ao poder decretado, caído vezes sem conta em mãos que não sabem o que dele fazer, ou o usam de forma despótica e arbitrária, sem prestação de contas. O Trabalho, que deveria ser dignificante antes de tudo o mais, transformou-se em explorado ou explorador, desprezando o valor da pessoa para se concentrar no valor da pessoa produtora, que, tantas vezes, produz menos do que destrói. O apelativo já não é o trabalho, mas o emprego.
Na perseguição ao achincalhamento voraz, dizia-se e repetia-se que a sociedade se alimentava de Fátima, Fado e Futebol (é arbitrária a ordem dos factores). Fátima mantém-se, porém, porque se mantém a fé dos homens. Crer em Fátima não é dogmático, é verdade, mas intolerável se faz que não crentes, clérigos alguns, se entretenham a tentar conspurcar a crença dos que a detêm. O Fado deu um trambolhão, transformando-se o verdadeiro, proliferando fadistas em vez de fado e fadistas de outros fados. Crescem como cogumelos concertos e festivais, mormente festivaleiros, para os quais artistas tão desajeitados quão idolatrados arrastam multidões e onde certas práticas primam pelo indecoro, à vista de todos passando o imaginável e o inimaginável. O Futebol tornou-se praga maldita, por todos os motivos, a que não fogem os poderes que o dominam e lhe maquilham a face. Envolvem-no somas aberrantes e escandalosas, verdadeiras afrontas àqueles que se alimentam diariamente de migalhas; quando se alimentam. Sintonizamos canais televisivos e deparamo-nos com doses maciças de palradores futebolísticos que se multiplicam, simultaneamente, por diversas estações: quatro, às vezes. Se o monopólio das transmissões dos jogos de futebol se anicha em certas mãos, detentoras de certos canais, mais adequado se tornaria que fossem  esses mesmos os palcos dos comentários extenuantes, abusivos, incómodos. Nem sequer faz sentido que o grande público seja implacavelmente fustigado por débitos de comentários sobre aquilo que somente uma pequena faixa pagante visionou. Com a agravante de tais comentários se transformarem vezes sem conta em arenas de má imagem, arrogância, insulto velado, falta de serenidade e contenção. Por mim, estou farto...
Escrevo segundo a antiga ortografia.