Tristeza minha…

A mudança andava no ar, os ventos anunciavam-na, as conversas iam por aí e, a esperança, envergonhada, espreitava nas esquinas, nos becos, vielas e nos conversares entre amigos. Os humores dos que até aqui nos trouxeram, traíram-nos. Cientes do que nos tinham feito, a todos, velhos e novos e que, por isso mesmo, travaram o advir de netos e filhos, futuro de Portugal, tentaram a mudança de agulha. No estertor, no antever da derrota, Governo e Presidência da Republica, unidos pelo bolor do passado, rançoso e desigual, tentaram manobra ilusionista: fazer desaparecer quatro anos de história, de humilhação de um povo, de uma nação, fazer crer que não tinham sido os autores mas o trio, a troika, os mercados, os outros e nunca eles.
O Presidente da Republica, falando de cátedra, lá do alto do pedestal onde sempre se colocou não informou, avisou, chiu, não façam barulho nem ondas pois, aprendizagem de Faculdade, os mercados ficam nervosos, zangados, e podem-nos fazer mal, não ao povo, mas aos bancos e aos grandes grupos económicos. Passos, o tal que executa o contrário do prometido diz que, se ganhar, tudo será diferente, tudo fará pelos desprotegidos, os poderosos que se cuidem. Sabemos o que entretanto tinha decidido com o Banif, bomba ao retardador, e suas consequências desastrosas nas vidas da maioria do povo exausto.
Costa ascende ao poder, por mérito, pelas regras democráticas, contra a vontade de um Presidente que caminha, hilariante, rumo à atraente sucção da mais pequena porta da História. Abril, nós, a democracia, impôs regras de há quarenta anos, escritas em forma de Lei: só o Governo apoiado pela maioria da Assembleia será o de Portugal.
Velho tonto, eu, espero há quarenta anos o arranque da igualdade. O Governo, perfeito, da esquerda que trago colada à pele, arregaçou as mangas e, com os magros recursos, escolheu outros caminhos para nos levar a bom porto: cumprir com a Europa, elevar o ego de todos, como pessoas e como nação, tapando o fosso que separa os dois lados, os poderosos e os que por eles são sugados, a maioria.
Fiquei gelado quando ouvi, um dos ídolos da geração que tornou possível a queda da ditadura, Manuel Alegre, afirmar como populista a exigência nacional da queda definitiva, de trás para a frente, de todas as subvenções vitalícias. Ninguém entende como foi possível, com a anuência de todos os quadrantes políticos, a ocultação e o apunhalar, através deste privilégio infame.
 
Os Políticos, todos eles, deveriam usufruir de ordenado acima da média, de topo. Mas nada mais que isso. Apenas se poderiam aposentar como o comum dos cidadãos: 66 anos e dois meses de idade e quarenta anos de descontos. Teriam de ser proibidas a acumulação de reformas e imposta a revogação absoluta de todas as subvenções vitalícias pois que eles mesmo já provaram que, para os outros, caíram os direitos adquiridos.
A caminho da igualdade não lembra a ninguém a reposição das 35 horas no sector público. A igualdade mais uma vez se afasta, o fosso volta a alargar-se, com Tristeza minha…