Tudo menos honra e verdade

 
Escrevo às 15h30 de Segunda-Feira, dia 10, e ainda não liguei a televisão para ver como vão as peripécias do derrube do Governo. Sinto um misto de vergonha e de revolta. Vergonha porque nunca pensei que uma democracia pudesse colocar as questões formais acima das questões de substância da legitimidade democrática. Revolta porque se o XXI Governo Constitucional começar assim, conduzir-nos-á a um triste fim. Vergonha ainda porque se utilizou uma mentira para legitimar um golpe constitucional. Vamos aos factos.
A mentira: é verdade que, já por diversas vezes, as maiorias governativas foram cozinhadas no Parlamento. Porém, com uma nuance: elas foram sempre lideradas pelo partido ou coligação vencedor(es) das eleições. Nunca o tinham sido pela Oposição que, agora sim, pela primeira vez, tem maioria em relação ao partido/coligação vencedor das mesmas.
O golpe de Estado constitucional. Se não fosse pela teimosia do Presidente da República, o XX Governo Constitucional nem sequer tomaria posse, o que configuraria um golpe de estado. A simples hipótese de tal acontecer é repugnante e revela bem a imperfeição da nossa Constituição da República. Nesta e em muitas outras matérias. Podemos ser mais benevolentes ainda: somos tão imaturos e temos tão pouca história e experiência democráticas que nos deixámos chegar aqui, por inocência, distracção ou negligência. Mas chegámos.
A solução. O Presidente da República repôs a legitimidade e a legalidade democráticas. Criou os mecanismos constitucionais para haver um Governo e para que a este possa suceder outro. Salvou a honra do país e dos partidos de esquerda representados na Assembleia da República. Permitiu-lhes assumir as suas responsabilidades dentro da legalidade constitucional. Fora dela, como queria Catarina Martins, seria um novo PREC, puro e duro.
A facada pelas costas. O que é lamentável neste processo de constituição de um governo baseado no PS e com o apoio dos partidos de extrema-esquerda é que ele fosse anunciado a par e em paralelo com o governo legitimamente empossado. Soa a facada pelas costas e soa a chico-espertice só para tomar o poder.
Poder. Palavra mágica que cala os críticos e submete a ralé. Mal cheirou a poder, a ralé socialista calou todas as vozes dissonantes. Por isso, sabemos o que podemos esperar: a gamela será pequena para tanto porco esfomeado como o foi para os leitões da direita que bem se governaram à sombra do poder e bem espezinharam a classe média e deleitaram os banqueiros. Isso não é desculpa para os procedimentos de agora. Apenas permite compreender a natureza humana, toda igualzinha, independentemente de a cabeça de cada homem se dizer de esquerda ou de direita. Pela minha parte, ainda não conhecia pessoa de esquerda cuja cabeça não fosse de direita.
O resgate. Já sabemos que, ou há um milagre económico, coisa pouco comum nos nossos tempos ou, dentro de dois anos, teremos um novo resgate e pagarão os mesmos. O programa das esquerdas é só despesa. Receita, nem vê-la e, como o dinheiro não pode sair do cu do candeeiro (dos ricos é que não porque nem a extrema-esquerda mexerá no Código Tributário dos «capitalistas»), pagará a classe média de novo.