Um olhar sobre a Economia

O Senhor Arcebispo de Braga convidou-me para juntamente com o Dr. Miguel Cadilhe e o Engenheiro João Proença participar numa sessão que era suposto dar conta do meu olhar sobre a economia. 
 
Pensei que seria interessante acompanhar o meu olhar de um outro olhar, o olhar do Papa, através da exortação Evangelii Gaudium. 
 
O Papa reconhece os progressos que se têm verificado em vários campos e que têm contribuído para o bem-estar das pessoas, como é o caso da educação e da saúde. Também reconhece que esta evolução foi causada pelos enormes saltos qualitativos, quantitativos, velozes e acumulados, que se verificaram no progresso científico, nas inovações tecnológicas e nas suas rápidas aplicações em diversos âmbitos da natureza e da vida, fruto da era do conhecimento e da fonte de novas formas de um poder muitas vezes anónimo.   
 
Mas acrescenta que esta realidade convive com outra em que “o medo e o desespero apoderaram-se do coração de inúmeras pessoas, mesmo nos países ricos, em que é preciso lutar para viver, e, muitas vezes viver com pouca dignidade”.
 
Este olhar do papa confirma o que vou vendo por aí. Basta atentar no nível de desemprego que atinge os países do sul da Europa, e muito especialmente dos mais jovens em que a respetiva taxa ultrapassa os 40%, mais ou menos o dobro da que se verifica em todo o resto da União Europeia.
 
 
Estamos assim perante um problema muito sério no sul da Europa, problema esse que está muito para além do que nos dizem os números, porque é o desemprego que arrasta para a exclusão, situação que pode levar à perda de confiança nos próprios e nos que o rodeiam. E a perda de confiança normalmente conduz ao medo e, com medo, não há lugar para viver em liberdade. Nessa ocasião já não há mais nada para perder. 
 
Interrompi o meu olhar sobre a economia, fechei os olhos e lembrei-me dum pensamento de D. António Ferreira Gomes quando disse: “nem liberdade sem justiça, nem justiça sem liberdade”.
 
Depois fui ver o que nos diz hoje o olhar do Papa e, sem dúvida que o modo como vê a situação é tremendamente radical quando afirma: “esta economia mata…o poderoso engole o mais fraco… os excluídos não são só explorados, são resíduos, são sobras”.
 
Deste olhar do Papa sobre a economia fica uma grande angústia que é a de saber se ainda estaremos a tempo de nos libertarmos de um caminho que nos leva ao que o Papa designa de uma “nova e cruel versão do fetichismo do dinheiro e de uma ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano”.