Um país à beira do abismo

 
Nunca tive uma perspetiva catastrofista do país e do Mundo e, pelo contrário, sempre achei que mesmo em situações limite éramos capazes de dar a volta. Ocorre, que a sucessão de acontecimentos dos últimos dois anos, conjugada com uma falta de competência e de visão para o futuro, me fazem temer que o país possa mergulhar numa explosão social de consequências imprevisíveis. Todos aprendemos que, em teoria, é difícil compatibilizar políticas de ajustamento orçamental com políticas de crescimento tendo por suporte os gastos do Estado. Mais, também todos temos vindo a aprender que nem sempre o Estado, em matéria de investimentos, faz as melhores opções, seja ao nível da administração central da administração regional e da administração local. A classe política habitou-se a tratar os dinheiros públicos com pouco rigor escudada no princípio que as suas más decisões só serão sancionadas politicamente pelo voto popular. A responsabilidade individual dilui-se nessa coisa estranha e sem contornos definidos a que chamam responsabilidade política e, por essa via, têm-se permitido todo o tipo de barbaridades. Veja-se, a título de exemplo, os sucessivos cortes a que têm sido sujeitos os portugueses, sempre em nome da redução do défice e da consolidação orçamental, quando, na verdade, o que temos é mais défice, mais dívida, menos consolidação e, sobretudo, mais desemprego, mais desigualdades e uma economia mais anémica. E ninguém é julgado por isto, a não ser decorridos quatro anos, quando, pelo do voto dos eleitores, é feito o julgamento político. Veja-se, a título de outro exemplo, a enormidade que foi noticiada a semana passada sobre a Caixa Geral de Depósitos poder vender os 6% que detêm na Portugal Telecom, com as ações cotadas a € 3 (três euros) quando há 2 anos valiam € 10 (dez euros)! Será que a C.G.D. também precisa de vender em saldo e com isso castigar ainda mais os portugueses que são os seus acionistas?
A política portuguesa é hoje um circo onde já não há estratégia nem rumo. A um governo incompetente, porventura o mais incompetente de que tenho memória, junta-se uma oposição que parece não viver num mundo real. Não basta clamar contra a austeridade para tentar cavalgar uma onda populista que anime os portugueses. Não. É preciso que os portugueses acreditem nas soluções e nas pessoas, que não podem ser miraculosas nem prometer o que não é possível cumprir, mas ajustadas a um tempo de dificuldades onde os sacrifícios têm de ter justificação e, sobretudo, a perceção de retorno às condições de sustentabilidade económica e social. E para isso é fundamental que se ergam as vozes para reivindicar uma nova arquitetura nas instituições europeias, designadamente no Banco Central Europeu, uma nova visão instrumental sobre a correção dos défices (público e externo) e políticas dirigidas para a competitividade. Passaram-se anos a fazer coisas mal feitas e por isso é ingente por tudo em causa e discutir aas questões do nosso futuro coletivo tendo por base as balizas atuais (demografia, desertificação do interior, recursos endógenos, necessidade de garantir o funcionamento de estabilizadores automáticos, modernização do ensino superior, etc.)
Mas para que isso aconteça é preciso que todos se sintam convocados, porque sempre que um incompetente toma poder é um tipo competente que decidiu ficar no conforto da sua situação individual, carregado da mais cínica inércia e dum distanciamento e crítica que o torna também responsável pela chegada ao abismo.