Um Regresso ao Passado…

Em surdina, pelos becos e vielas, nas conversas de café, nos segredares ansiosos, nos escondidos lares, nos exaltados comícios, nos textos de opinião, as saudosistas gerações de Abril conspiram.
Falemos apenas dos que, na longínqua madrugada, teriam vinte, trinta e quarenta anos. Sabe-se, sem conselhos de reputados especialistas, que nos cruzamentos etários haveria de tudo, os que ansiaram e lutaram pela revolução e os que, tudo fizeram para a evitar e ainda hoje a renegam.
Hoje, após estes desastrosos anos, aqui chegados, teremos sessenta, setenta e oitenta anos e, muitos, andarão nos meandros da década. Caminhamos desunidos, em campos opostos, exaltados pelas vitórias dos nossos, deprimidos pelos foguetes dos outros. Os timoneiros, os que aos pedestais subiram com nossos empurrões, fizeram vidinha, somaram num complexo jogo de subtracções. Ao beber no coração da democracia a História cantará os que genuinamente lutaram por ideais, os que sangraram no antes e após Abril.
Construímos uma democracia coxa, minguada de visão pois que confiada nos que nos haveriam de trair. Eminências pardas, doutores habilidosos de cabeleira abrilhantada, de colarinhos engomados, de cobiçadas gravatas, enfiados em fatos dos melhores cortes colaram-se, até hoje, nas melhores cadeiras do poder, não politicas mas da alta finança e do obscuro mundo dos negócios.
Assistimos, durante estes quarenta anos, a um prodigioso malabarismo, inventamos os direitos adquiridos, direitos para uns, deveres para outros com a suprema bênção dos politizados líderes do mundo sindical.
Construímos dois mundos de costas voltados, o privado e o público. Para uns quarenta anos de serviço, oito horas de trabalho diário, aposentação aos sessenta e cinco, reforma de oitenta por cento do ordenado e saúde pelas regras da Segurança Social. Para outros, trinta e trinta e cinco anos de serviço, seis horas de jorna diária, aposentação de cem por cento do ordenado e aos cinquenta e sessenta anos e saúde pelas regras da ADSE. Entre estes últimos encaixam os altos privilegiados das Corporações, os que diferentes se acham, os que se pensam insubstituíveis.
Os resultados democráticos, indecorosos, esmagam pelo aviltamento: destino irónico, os de setenta e oitenta anos, maioritariamente saudosos do passado, com plenos direitos de reforma e os de sessenta, talvez os empurradores do cravo da liberdade, morrem na praia vislumbrando a radiosa miragem da aposentação.
Após quarentena, triste fado: pais em lutas de umbigo inchado, deixam vergonhosa herança aos filhos, ordenados de miséria, empregos precários suportados nos malfadados recibos-verdes, enfim, Um Regresso ao Passado…