Um sinal interpelante

1. Quem — pela distância física ou do tempo — está longe do que ama, é quem as mais das vezes se mostra mais atento ao «objecto» do seu amor, pela saudade. E daí que os sinais da «recordação saudosa» sejam mais fortes. Digo isto a propósito de um facto interpelante. Li, em mais do que um lugar (e no Mensageiro de  Bragança), que os ex-alunos do ex-colégio Campos Monteiro, de Moncorvo, criaram uma Associação e, pela décima vez, realizaram um encontro anual, por dois dias, de convívio e de cultura.
2. É bem conhecida a tradicional experiência da especial irmandade entre aqueles que durante anos estudaram e conviveram numa mesma escola. Mas se tal era bastante frequente, no passado, parece que já não é tanto assim, neste nosso tempo. Porquê?
Porque as condições da vida escolar e do contexto mudaram muito. Onde, na antiga escola, havia proximidade e segurança, há hoje relações massificadas, não raro em ambiente de indisciplina e de agressividade. Com queixas de professores e de pais. Os antigos pequenos liceus e pequenos colégios, em ambiente personalizado, deram lugar aos actuais mega-agrupamentos escolares, massivos e stressantes. Onde antes havia pedagogos, há hoje professores funcionários, que aparecem todos os dias nos noticiários da televisão representados pelos seus sindicatos em guerra com o ministro da Educação. E quanto aos alunos, frequentemente se mostram queixosos e reivindicativos, e quase nunca parecem felizes com a escola. É certo que a democratização da escola é uma bela conquista. Mas democratização não é massificação. É suposto que a escola seja educativa. Mas não se conhece nenhum «projecto educativo» que defenda um tal ambiente escolar.
3. Isto que digo não é uma crítica às pessoas; é sim uma crítica a uma organização escolar que não faz felizes nem os professores nem os alunos — nem os pais dos alunos, que são os primeiros responsáveis pela educação dos seus filhos. Tudo isto é obra do Estado-educador. É obra da política. E a política é inevitavelmente desígnio de poder ideológico e partidário. As nossas crianças deviam ser educadas por escolas dirigidas por pedagogos, não por uma Administração que exerce poderes heterónomos e é politicamente orientada.
4. Parece que a era pós moderna quer politizar tudo. Desde a revolução que está na sua origem, nos países democráticos (não falo dos totalitarismos), há um slogan que revela esta deriva. Diz assim: «tudo é político!». Ora isto é inaceitável: nem tudo é político; a nossa autonomia privada, civil, não é política. Deve ser defendida pelo poder público; mas ela é privada. Se é privada, é autonomia; enquanto que a política é heteronomia.
A educação das crianças pertence à autonomia dos pais, das famílias, das comunidades próximas e dos pedagogos. Não é uma questão do poder heterónimo político e administrativo público — que é exercido pelo concerto dos partidos políticos, dentro ou fora da Assembleia da República e do Governo. A educação das crianças só por delegação ou confiança dos pais pertence aos professores, mas como pedagogos. Por isso, e para defender a sua arte e a sua autonomia educativa, os professores deviam ter uma Ordem, antes de terem um sindicato. Porque a Ordem é uma associação de profissionais de uma arte elevada, com autonomia e privilégios. Um sindicato é apenas uma associação para defesa dos interesses profissionais contra o patrão, privado ou público.
5. Esta me parece a questão maior da nossa escola. Quando se defende «a escola», não porque deve ser um santuário da nobre arte da educação, pontificada com autonomia pelos «pedagogos», mas sim porque é «pública», serviço de «funcionários públicos» pontificada pelo poder político, logo fica à vista que essa defesa da escola não é a defesa do substantivo «escola»; é a defesa do adjectivo «pública».
Pelos vistos, o Colégio Campos Monteiro foi uma escola-substantivo — ponto.