Um tostãozinho prá cascata

Dos festejos em honra de Santo António, São João e São Pedro guardo na memória a desvelada, entusiasmada e amorosa construção de cascatas a fazerem lembrar os Presépios. No referente à hierofania a essência é diferente, provém dos cultos solares, expressa no solstício de Verão, dia 21 de Junho, no entanto, a celebração decorre debaixo dos auspícios de S. João Evangelista, gastando a noite do dia 23 e o dia 24. A construção das cascatas entusiasmava as crianças, algumas bem matulonas, obrigando os pais a ajudarem na procura de musgo e arbustos, as mães a desencantarem figurinhas de barro, de madeira, luzinhas e santinhos. Os santinhos assumiam importância vital, eles eram o santo e a senha capaz de tribular os empedernidos forretas do categoria do comerciante que ao lhe cair um tostão mal entalado nos dedos, porque a escurecia não hesitou em gastar uma caixa de fósforos na tentativa de o recuperar. Não recuperou. As cascatas não iam a concurso como acontecia e acontece na cidade tripeira, mas suscitavam bem-humoradas rivalidades entre parentelas, ruas e bairros, as dos meninos escoravam-se prosaicamente na quantidade de dinheiro amealhado por cada um. Era vê-los e ouvi-los: meu senhor, meu senhor, dê-me um tostão, um tostãozinho: prá cascata, imediato, o rapazinho de lampiões no nariz, mãos encardidas a segurarem o Santinho, mostrava-o aos passantes. O Santo, ternurento, de olhar grácil a indiciar: vá lá: um tostão ou dois é pouca coisa! Não, não era, um tostão representava dois rebuçados retirados do grande frasco de vidro pela mão experiente da Tia dos manos Hortas, Senhora bondosa, estabelecida em frente ao cotovelo da Igreja de S. Vicente. Às vezes acontecia o milagre, a mão estendida agarrava uma c’roa a originar pulos de contentamento do garoto. Pudera, cinquenta centavos representavam seis rebuçados caseiros vendidos no estanco do Sr. Zé Velhinho, homem afável e reinadio. Menos ou mais limpas, calçadas ou descalças, donas de voraz apetite dada a penúria reinante em irmandade com as satisfeitas porque na sua casa o pão estava recluso, as crianças coloriam as ruas e travessas ornamentadas a retalhos de papel de cores vivas, os santinhos nem sempre as livravam de um piparote, no entanto, o saldo era lucrativo mor da sua intercessão junto dos abordados. Não sei se a as cascatas ainda persistem, mas sei que a manterem-se, a tabela de doações teve de aumentar, o fisco não perdoa, nem aos risonhos Santos populares.