A violência doméstica e a circunstância

Vício antigo, a comunicação social  escancara as janelas do estrondoso, apimentando-o quanto pode, desprezando, porém e por norma, atitudes pedagógicas concernentes, também minguadas a nível institucional. Seduz o alarido, e não seduz a busca de soluções. Paira como nuvem escura de trovoada a violência doméstica, por vezes observada através de prismas estalados, outras redutor qualquer ensaio analítico tendo-a por objecto. E, entretanto, nada que rasgue a cortina de fundo que nos afasta de uma posição preventiva séria, rigorosa e adequada. Jamais se vasculham no lixo social as causas da enormidade, próximas ou remotas, como se tudo se esgotasse nas suas formas mais graves de homicídio corporal ou psicológico, quando o mais profundo da questão mora nas respostas a um múltiplo interrogativo que deveria tornar-se-nos inquietador (ninguém mata porque sim). Porque nada se remediará enquanto nada se souber prevenir. Em boa verdade, importante não será a mera tipificação de um crime, porque pouco importa a semântica, patamar onde se entretêm, tão confusamente, as estatísticas. A sensibilização pode crescer, mas se o fenómeno em apreço não se atenua, então mal vai a primeira, ou não é bastante. Não nos poderemos surpreender sobremaneira quando a criminalidade conjugal não se minora tanto quanto a restante. Nada ou pouco se tem concertado para que o fenómeno entre pares e portas se esbata, adquirido também, de forma simples falando, o paradoxo de se tornar naquela que mais se agride a pessoa que está mais próxima de nós. Daí o maior imediatismo deste crime emocional. E pouco importarão as leis e as penas se nada mais for feito do que cruzar os braços a montante do problema. Vezes inúmeras tão pouco a denúncia da iminência de perigos é bastante, parecendo que não levada a sério ou amachucada e arremessada para o cesto da burocracia. E ninguém se detém no estudo rigoroso da «psicopatologia dos agressores (e também das vítimas)». Mais impulsivo o homem, quiçá pelo que a vida lhe fez, ou mais planeadora a mulher, não haja, porém, a tentação simplista de reduzir a violência doméstica a homem e a mulher, porque ela se estende, nos seus efeitos e de forma bem mais gravosa, à criança. A probabilidade de homicídio conjugal por parte do homem, dizem as estatísticas, aumenta quando a mulher pede a separação de si. Também assim o entendo e à vista desarmada, mas esta simples constatação não me impele, contudo e como lido, a associar o crime à perda de poder por parte do homem na mesma relação (de que lado está o poder na relação?...). Muitas das mulheres que morrem às mãos dos maridos ou companheiros são mães de filhos crianças. E, no que tange à relação que passa a acontecer com os filhos do casal, todos sabemos a viragem na situação daqueles que eram cônjuges e deixaram de o ser. Uma justiça pesada e lenta (e o tempo das crianças não é o tempo da justiça...) entregará, viciada já, os filhos à progenitora (pergunto-me se, a não ser destarte, a profusão de separações e de divórcios se manteria...), o pai relegado para a detenção de um estatuto de valia nula, pouco mais que um estranho e pouco menos que um marginal(izado) num mundo e num caminho que as crianças passam a percorrer, que ele não pode controlar, porém que sabe e vê tantas vezes tão necessitados de controlo. E tudo isso causa muita perda, muita raiva, muito sofrimento e muita dor, que nem todos são capazes de saber gerir.
Escrevo segundo a antiga ortografia.