Virar de página…

Ali, lá longe, numa das pontas de Portugal, nos sítios onde moram os ventos que nos conhecem, nos lugares onde as poeiras se levantam ao passar das bestas e nos ofuscam os olhares, todos conhecemos os cantares das nossas frescas ribeiras que vagueiam nos sonhos de infância pois que desaparecidas nos meandros dos humores climatéricos.
João e Alzira há muito que aqui não vinham, as vidas levaram-nos para outro mundo, obrigados a isso foram, pela inata lei da sobrevivência que em nós habita. Fizeram-se à estrada nas cozeduras de Abril, a Liberdade ainda estava nos sopros do arranque, Depois do Adeus esperava por Grândola, escondida e à espreita nos escuros becos da clandestinidade.
João, nascido e criado nesta aldeia transmontana, neste pocinho de azeite, vale encravado entre ondulantes e suaves montes onde crescem as rainhas da aridez, as robustas amendoeiras e oliveiras, imediatamente após regresso do ultramar, da Guiné onde se despojou da alma e das entranhas, rumou ao futuro. Com ele, colada a ele, levou Alzira, de aldeia próxima, pois que lhe jurara amor eterno, lealdade sem cobrança, nas linhas garatujadas nos voadores aerogramas do velho regime.
Na França longínqua, por detrás dos arrepiantes Pirinéus, nos subúrbios degradantes de Paris, entre desafortunados mas fraternos portugueses, párias de um Portugal de costas voltadas para o Mundo, assentaram arraiais em abarracado lar de iguais, entre os encontrares de poiso definitivo. Os dinheiros do empurrão, frutos da venda de herança antecipada, depressa se diluíram pelos custos da viagem e obrigações inadiáveis.
O Fado, bendito destino, sorriu para eles, João nas mecânicas do mundo automóvel, ela Fada de Lar, afago rosado e sadio, apoio insubstituível, esteio de algumas Famílias francesas genuinamente reconhecidas.
Por morte de Alfredo, irmão de João, o mais cobiçado solteiro do lugar, aqui estão, prontos a transportar as memórias por ali espalhadas, pois que os haveres errarão por aqui até aos pegares sucessórios.
Para o ilusório transporte pensaram num imaginário baú, mas ínfima malinha de mão será em demasia. A infância já não mora por ali. Os machos, os burros, o ranger dos carros, os trigos e cevadas, as malhadas, os fornos, o bendito pão, as alheiras, os saudosos velhos, Tios e Tias das meninices que não voltam, a voragem dos tempos chegou aqui. Tudo mudou, em definitivo.
Sebastião, único filho de ambos, com dupla nacionalidade, licenciado em Ciência Politica por uma das mais prestigiadas Universidades Francesas, publica, tinha-os informado das aragens que assolam as democracias europeias, dos ventos correctores dos costumes e tradições nunca escritas em nenhuma Constituição: nas legislativas vota-se para deputados e não para Primeiro-ministro, nas Presidenciais submetem-se a sufrágio Cidadãos e não Partidos Políticos.
De regresso e na bagagem transportam uma ideia, uma certeza: na aldeia e em Portugal assistiram ao Virar de página…