A Vitória da PàF e a Metáfora da Traição Conjugal

Para uma larga maioria dos portugueses, o último governo liderado pela coligação PSD/CDS ficou marcado, entre outras coisas, quebrando, assim, muitas das promessas feitas na campanha eleitoral de 2011, pela responsabilidade de:
1 – Não ter controlado o deficit das contas públicas;
2 – Ter provocado o maior aumento de impostos da história da Democracia;
3 – Ter cortado nas reformas e nos salários dos funcionários públicos;
4 – Ter cortado nas prestações sociais;
5 – Ter aprovado uma lei laboral que, pasme-se, deixou de contemplar o “privilégio” de, por exemplo, um trabalhador a quem faleceu um parente em linha colateral, 3.º grau (tio/tia ou sobrinho/ sobrinha), ter um dia justificado para assistir ao funeral.
6 – Ter “convidado” milhares de jovens a sair da “sua zona de conforto”;
7 – Ter contribuído para o alastrar da pobreza – uma em cada três crianças no nosso país passa fome.
8 – Não ter acabado com as ditas “gorduras do Estado”.
Perante este cenário, mesmo para aqueles que, como eu, pouco percebem de política, havia condições para que António Costa ocupasse a cadeira de São Bento. As certezas eram tantas em relação à eleição do ex autarca lisboeta, que os mais optimistas achavam que para assegurar a vitória do PS, bastava o candidato não abrir a boca.
            Na última semana da campanha eleitoral, todas as sondagens (Marktest, Iintercampus e Universidade Católica), contrariando o pulsar de milhares de portugueses que, durante quatro anos, se sentiram sufocados pelas medidas de austeridade, davam um avanço considerável da Coligação sobre o Partido Socialista.
             A verdade é que, no dia 4 de Setembro de 2015, através do voto, o povo expressou a sua “vontade”: a coligação PSD/CDS foi, uma vez mais, escolhida para dirigir os destinos do país, para enorme frustração daqueles que consideravam certo o ovo no dito da galinha.
            Incrédulos, muitos se perguntavam como foi possível, sem, no entanto, terem uma resposta aceitável. Pouco académica e longe de ser vinculativa, eis, pois, sob a forma de metáfora, a “tese” que melhor explica o que terá acontecido para provocar o espanto geral.
            Um certo senhor foi traído pela mulher. Como o orgulho e o preconceito impediram de perdoar a companheira de longa data, resolveu saiu de casa e, uns dias depois, juntou-se com outra mulher, sua vizinha, divorciada, aventureira, e cujo final da relação com o ex se deveu, dizia-se lá no bairro, à propensão que esta tinha em saltar a cerca conjugal.
            Após uma semana de reflexão, pesando nos prós e nos contras, resolveu regressar ao lar. Espantado pelo recuo, o melhor amigo questionou-o:
- Então, depois de tudo o que a tua mulher te fez, da humilhação a que te sujeitou, ainda vais para os braços dela?!
Pragmático quanto baste, respondeu ao amigo e confidente:
- Sabes, a mãe dos meus filhos, com todos os defeitos que tem, já a conheço. Sei com aquilo que posso contar. Pior mal do que já me fez é impossível. Ao contrário, a mulher na qual julguei encontrar, como alternativa, a estabilidade emocional, não me dá qualquer garantia. Prosseguir, pois, tal relação, seria uma atitude precipitada da minha parte, por recear o salto no escuro.
Ou seja, outra explicação para o sucedido, ainda que respeitável, nunca poderá ser dada pela Ciência Política. Pois, só a Sociologia e a Psicologia serão capazes de interpretar as motivações daqueles que contribuíram para o impensável.