Vizinhanças positivamente interativas

Lembro-me, desde a minha terna idade, de uma história que o meu pai me contava, cuja lição moral se resumia ao valor inerente à partilha e à promoção de uma relação positiva com a vizinhança.
Referia a história que um agricultor andava a lavrar ao Domingo, com a sua junta de bois, fortes e valentes. E como é um dia Sagrado, dedicado ao descanso e ao exercício dos deveres da fé, o Senhor teria aparecido na propriedade e abordado o agricultor, interpelando-o sobre o facto de ser pecado andar a lavrar nesse dia. Mesmo perante várias ameaças para que terminasse a faina, o lavrador resistiu intempestivamente às interpelações do Senhor. Até depois de ameaçado que Lhe poderia matar os bois, se não parasse de lavrar, o homem decidido, não desistia da sua teimosia. Perante a postura resistente do interpelado, o Senhor advertiu-o que se não terminasse o trabalho lhe colocaria um “MAU VIZINHO” à porta. Ouvindo isto, depressa o prepotente lavrador terminou a labuta. Verbalizara ele que poderia lutar e até ultrapassar todas as ameaças, menos aquela lhe colocaria mau vizinho à porta.
Sem nunca me ter esquecido desta pequena história, entendo que os vizinhos fazem parte de nós, do nosso quotidiano, da nossa vida. Poder contar com bons vizinhos será uma bênção de Deus. É que, se pensarmos bem, e quem vive essa experiência pode falar por si, deverá ser infernizante não ser possível estabelecer uma relação, no mínimo civilizadamente cordial, com os vizinhos. Costumo até dizer que são os familiares mais próximos, e inesperadamente mais úteis. São os vizinhos que nos saúdam logo pela manhã, ou se despedem de nós à noite, São os vizinhos que observam o que de anormal pode ocorrer junto da junta nossa porta, ou até dentro da nossa casa. São eles que nos acodem, em primeiro lugar, numa situação de necessidade iminente, nas situações imprevistas que acontecem a tanta gente.
É pois, deveras importante, cultivar uma relação de entendimento e conciliação permanente com os vizinhos, num contexto de respeito, boa fé, tolerância, compreensão e convergência.
E aplicando esta filosofia em relação aos vizinhos, o mesmo deve acontecer no que toca às localidades, freguesias, vilas, cidades, ou mesmo regiões.
Ora, assim sendo, entendendo que o desenvolvimento e o bom entendimento dificilmente se conseguem se cultivarmos uma postura de isolamento pessoal, corporativista, regional, ou olhando para o “umbigo individual”.
A nossa ação pessoal ou coletiva deve pautar-se por uma atitude interventiva, no sentido de promover um olhar afetiva e territorialmente mais abrangente e participativo.
Aplica-se, também, tudo isto, no contexto institucional e da geografia, sobretudo no que toca a uma boa relação entre povos e freguesias. Nada melhor do que freguesias, nomeadamente do interior, se unirem, lutarem juntas, pelo bem comum e pelo desenvolvimento transversal integrado. Deve, pois, ser promovida a participação ativa e criativa na construção da comunhão entre territórios vizinhos, com problemas idênticos, e as pessoas que neles habitam, cada vez em menor número, desenvolvendo entre todos a capacidade do aperfeiçoamento da abertura no acolhimento daqueles que partilham os mesmos espaços, no diálogo e na comunhão.
Tudo isto contribuirá para manter e promover a esperança num mundo mais justo, solidário, dando primordial importância à interação sustentada na relação com o vizinho, num contexto de partilha das alegrias e das tristezas, potenciando o diálogo construído na base da aproximação, da escuta e do respeito pelo “outro”.