Zé (Cid), francamente, estiveste mesmo mal!

 
Como natural deste pedaço de território luso situado aquém do Marão, não podia deixar de comentar a polémica suscitada pelos insultos feitos por José Cid ao nobre, honrado e laborioso povo transmontano, em 2010, no Canal Q, no programa conduzido pelo humorista Nuno Markl, e reproduzido recentemente nas redes sociais.
Esta imagem invertida do transmontano fez-se passar ao longo dos tempos, com as histórias do velho e do burro efabuladas pela comunicação social, que achava graça ao bom selvagem, de que em Miranda, em Mirandela, em Bragança, em Moncorvo, em Macedo, em Vila Real, em Murça, na Régua, em Chaves, etc., identificadas, porque sim, como zonas rurais, sem água canalizada e saneamento, as cabras, as ovelhas, os porcos e as vacas pastavam livremente nas principais ruas, e se malhava o trigo e o centeio junto aos paços do concelho.
 Ainda que reconheçamos terem existido, nos idos anos 50/60/70 do século passado, em termos “civilizacionais”, diferenças entre os transmontanos e os demais cidadãos que viviam para lá do Marão, ninguém moralmente bem formado pode negar que elas existiam não por razões genéticas (predisposição da “raça” para a “parolice”), mas pelos muitos obstáculo que a transmontaneidade teve que transpor para atingirmos esse recomendável patamar cultural e civilizacional, cujas diferenças, de pormenor, estão hoje esbatidas em todo o território nacional.   
Por paradoxal que possa parecer, esta polémica, para além de ter contribuído para desmistificar um equívoco que se eternizou no tempo, foi “um mal que veio por bem”: o episódio lamentável protagonizado pelo Brad Pitt da Chamusca serviu para demonstrar a capacidade dos transmontanos para se indignarem perante a vil ofensa. Nunca imaginei que tal pudesse acontecer, porque a história de Trás – os – Montes é feita de repetidas espoliações, morais e patrimoniais, sem reacção ou oposição daqueles que sentem a injustiça na pele.
Sendo certo que os traços diferenciadores dos transmontanos são muito mais do que o bom vinho, a boa comida, a hospitalidade das suas gentes, etc., porque nesta “reserva de índios” -  onde nasceram personalidades como Miguel Torga, Trindade Coelho, Guerra Junqueiro, Abade Baçal, Graça Morais, Paulo Quintela, Adriano Moreira, entre muitas outras figuras ilustres -,  também há massa crítica, também se produz e aprecia cultura, fica-nos a consolação de que o “aluno” insolente foi exemplarmente castigado: a “professora”, Berta Nunes, fez a justiça de o pôr de frente para o quadro, de mãos atrás das costas, premiando os colegas Roberto Leal e os Galandum Galundaina (que orgulham a “comunidade educativa”) com a ida ao recreio.