Armando Fernandes

 

 

Traços e Troços Destroçados

A leitura dos jornais de Bragança propiciam-me alegrias e avivações de afectos, fico-lhe grato por isso, no entanto, também me provocam agravos no desenrolar dos dias porque relatam o constante definhamento humano a plasmar outros deslaçamentos. Estou convicto que de tal sorte de agravos também outros sofrem, ainda mais quando se aproximam eleições a justificarem aos detentores do poder e aspirantes a tal, a maçada de se deslocarem às terras do interior na caça ao voto.

Lago Sanabria

Tão perto de Bragança, tão distante durante décadas, tão apreciado na estação calmosa. Reina grave e acesa discussão nas estâncias de poder espanholas porque o lago estará a ser contaminado pela má acção das depuradoras, também devido às maldades provocadas pelo homem. Os senhores inimigos da barragem de Veiguinha, que eu saiba, ainda não desataram o nó do lenço de protestos relativamente às denúncias da Estação Biológica Internacional, que além de serem contestadas pelos organismos oficiais recebem insinuações de serem feitas devido a interesses financeiros.

Tabafeias

Na última edição do Mensageiro a propósito do intento da Câmara de Miranda em certificar a tabafeia, a Senhora Vereadora da Cultura disse: “Tabafeia uma espécie de alheira apenas produzida na região de Miranda do Douro”, o que além de ser uma falsidade do tamanho da Sé do Menino Jesus da Cartolinha, significa estar a detentora do pelouro cultural a passar um atestado de menoridade às gentes de outras localidades da Terra Fria. O sábio Leite de Vasconcelos acerca da tabafeia anota: “É, em Bragança, uma espécie de chouriço feito de dobrada, galinha, pimento, etc.”.

Há mar e mar…

Tinha sete anos quando pela primeira vez vislumbrei o mar. Não lhe achei graça, meteu-me medo, aquele mar de Matosinhos pura e simplesmente perdia relativamente ao mar sonhado através do ouvido na aldeia de Lagarelhos. Ao dia de ver o mar sucedeu a noite, bem mais alegre e garrida, no arraial em honra do Senhor de Matosinhos comi farturas, andei nos cavalinhos e o meu benquisto Tio Francisco ofereceu-me um biciclista de madeira dotado de campainha de modo a avisar os distraídos da iminência de choque. Entre o mar e a terra preferi a certeza de pisar terreno firme.

Tempos Extraordinários

A torto e a direito, por dá cá aquela palha, ouvimos e lemos, estarmos a viver tempos extraordinários. Em muitas perorações é notório o extraordinário empenho dos faladores tentarem mascarar a realidade através dessas duas bengalas, revelando dificuldades em admitirem serem os extraordinários tempos resultado dos tempos difíceis, cujo retrato sombrio nos foi dado por famoso escritor inglês autor de obras de danação humana, cujo título de uma delas é: Tempos Difíceis.

Lembrando Eusébio

A primeira pessoa em Bragança a mostrar-me uma fotografia de Eusébio, foi o Senhor Augusto Poças. Benfiquista ardoroso nutria grande apreço pelo artífice da vitória em Amesterdão, que eu presenciei no café Moderno debaixo os olhares vigilantes do Sr. Roque, o qual além de ser Andrade abominava ver-nos sentados duas horas ao redor das mesas consumindo apenas um galão e um bolo de arroz, este de óptima qualidade. Julgo que o Sr.

Medo

A passagem de um ano para o outro para além das mundanidades, da farândola festiva e amenidades quantas vezes eivadas de hipocrisia, obriga os incomodados com eles próprios a fazerem o balanço do passado e perspectivar o futuro. Do ouvido, lido, respigado e conversado retiro a palavra medo. Não o medo aos medos da minha meninice que surgiam nas encruzilhadas, nos locais ermos, nas travessas esconsas onde os meninos não deviam ir, nem de noite, nem de dia, muito menos à hora do meio-dia.

Natal todo o ano

É uma frase feita, a do Natal durante o ano inteiro. Temo que não passe disso mesmo. No entanto, se agora existem excepções a confirmarem a regra, no antecedente, pelo menos até à década de setenta do século findo, nas aldeias, vilas e na cidade, quase posso afirmar com certeza que a excepção era ao contrário. A generalidade das casas mais abonadas auxiliavam as carentes, nas aldeias mais à solta ou à vista, em Bragança as benfeitoras (a maioria do auxílio era prestado pelas mulheres) praticavam o recato cumprindo na íntegra a máxima: que a mão esquerda não saiba o que a direita faz.

Língua Charra

Fosse eu dado ao comércio epistolar de elogios na ânsia de daí retirar lucro de vaidade à conta do alheio e trataria de escarafunchar na Língua Charra palavras, palavrinhas e palavrões a ribombarem a colheita de A.M. Pires Cabral que agora coloca ao alcance de todos, e desta forma titulada.

Agora e na hora da nossa morte

Aumentou a nossa esperança de vida, consequentemente aumentaram de forma desmesurada as necessidades de apoio debaixo de todos os aspectos aos nossos parentes mais velhos. O título desta crónica é o de um livro consequência de um projecto-piloto de cuidados paliativos domiciliários, no Planalto Mirandês, iniciado em 2009, apoiado pela Fundação Gulbenkian, Instituição que também o edita e colocou ao alcance de todos os públicos.