Armando Fernandes

 

 

RTP

Opulenta na subserviência ao poder desde a sua fundação, o primeiro presidente foi figura grada no Nordeste Transmontano, a televisão pública, volta que não volta, obriga-nos a reflectir acerca da sua validade porque custando-nos centenas de milhões de euros está longe de corresponder ao postulado do serviço público. E, no entanto, na época da outra senhora, como nos tempos de agora notáveis profissionais ali demonstraram e demonstram não lhes faltar talento e competência? Que se passa então? Responder a estas fortes interrogações é impossível no espaço desta crónica.

Aniversário

O Mensageiro celebra 75 anos de vida. No futuro o historiador plasmará provavelmente o seu devir escorado na matricialidade de onde emana. A celebração de uma existência cujas origens brotaram debaixo da tempestade autoritária dos ismos originadores de largas dezenas de milhões de mortos lá fora, cá dentro o espartilho derribava opiniões contrárias à ordem estabelecida, provocava dor e sofrimento, atingindo ilustres membros da Igreja que personifico no Padre Abel Varzim. Obviamente, inseria apologias ao Estado Novo.

Fragmentos natalícios

Ao contrário dos possuidores de sistemática presença do Natal, a fremente quadra surge fragmentada na minha memória, escorada em acontecimentos intensos que balizam o calendário dos anos. A radiosa exaltação do Menino Deus deitado entre S. José e a Virgem Maria, aquecido pelo bafo do burrinho e da vaquinha, rodeados de musgo, no presépio de Lagarelhos, faísca pormenorizada.

E agora?

Tremendos rugidos ressoam na paisagem social portuguesa. As caixas de ressonância só não penetram nas comunidades monásticas votadas ao silêncio. Não tenho conhecimento capaz de enunciar mesmo que modestamente a construção modular do silêncio do monaquismo egípcio que intuímos nos escritos de João Cassiano, muito menos sobre a alegria de todos quantos praticavam a disciplina da omissão da palavra a favor da prática do mutismo.

Retratos

Conheci e conheço pessoas contrárias a serem retratadas. E, no entanto, contemplavam e contemplam o Mundo através de retratos de todo o género, forma e feitio. O sábio das Mitologias não apreciava ser fotografado, o filósofo Orlando Vitorino também não, ao que sabemos o poeta Herberto Hélder detesta ser atingido pelo disparo da câmara fotográfica.

Produtos do Nordeste

 
No decurso do Festival Nacional de Gastronomia duas saliências negativas obrigam-me a considerações acerca do interesse em os produtos do Nordeste descerem até Lisboa e redondezas, e não tecer especulações porque os que vivemos na diáspora percebemos os nós, atalhos e encruzilhadas até mentais que se atravessam no caminho entre lá em cima e cá em baixo. Vamos e vimos porque tivemos de sair.

Bragança em Santarém

 
Na sexta-feira passada iniciou-se o Festival de Gastronomia em Santarém.
É uma manifestação cultural de tomo na qual as diversas regiões do País estão representadas sendo dado realce à herança patrimonial das artes culinárias e ao imprescindível suporte – os produtos. Ora, no referente a tudo quanto respeita ao melhor amigo do homem – o estimável reco – a A. Montesinho tornou-se sinónimo de alta qualidade granjeando prestígio e fiel clientela.

Póvoa Rica

Recebi convite para participar na Festa da Castanha a ocorrer em Vinhais, não o posso honrar absorvido em trabalho marcado, ficou a lembrança do terrunho onde fui feliz, a outrora Póvoa Rica. O apodo de rica povoação pode nos dias de hoje ser cousa esdrúxula, as causas da mudança de nome não cabem nesta crónica, mas em gente a riqueza durou séculos, o magro de recursos espalhou-a nas sete partidas, persistindo a saudade mitigada nas festas.

A chaga das praxes

Ainda ecoam nos ouvidos dos pais das vítimas do Meco o dobrar dos sinos pela trágica morte dos seus filhos e anuncia-se o retorno das malfadadas praxes. Em devido tempo explicitei a razão de detestar a prática de actos humilhantes e tortuosos contra os mais fracos e/ou novatos de uma qualquer instituição só porque e…da praxe.

11 de Setembro de 2001

Naquele dia estava em Vouzela a participar numa jornada cultural quando à hora de almoço soube do ocorrido. Uma familiar muito chegada estava nas imediações de Nova Iorque, pensei o pior, no fim do dia consegui falar-lhe, pela noite dentro pensei no horror, nas vítimas, sobre as nossas vidas a partir daí. Poucas semanas depois senti na pele os maléficos efeitos do hediondo crime pois quando me aprestei a embarcar para os Estados Unidos tive de responder a minucioso inquérito, descalçar os sapatos e ainda pior em Newark ao fazer o transbordo. Nem no aeroporto de Telavive.