Ernesto Carolino Gomes

Os afrancesados

Sentei-me numa esplanada da vila, na ânsia de me dessedentar, após uma jornada áspera, em dia de sol abrasador. Bem perto, três cidadãos para lá da meia idade falavam francês entre si. Todos portugueses.

Protecção dos animais e hipocrisia...

Como tantas outras todos os dias e a todas as horas, aquela gaivota insistia em se instalar na estância situada à beira-mar. Um zeloso funcionário tentou demovê-la do seu intuito, uma vez e outra vez, naturalmente porque incómoda para os utentes. Porventura confiante de que assim venceria a teimosia da ave, gesticulou com o pé na sua direcção, quiçá esperando que ela se desviasse para longe antes de a atingir. Gesto infeliz, porque, afinal, a gaivota não se mexeu e tombou, fulminada.

Justiça: realidade, ou ficção?...

Terminara o depoimento a testemunha arrolada por uma das partes, quando a  julgadora, dirigindo-se à constituinte da parte contrária e oficial do seu mesmo ofício, lhe atira: «Olá, Catarina!». E troca com ela dois amistosos beijos. A prebendada quadrou com um «Olá, senhora doutora!», ensaio, porventura, para salvar a face da desastrada colega. A testemunha, perante cenário tão esclarecedor, sentiu-se ferida nos seus princípios. Atitudes, formas de proceder e gestos como aquele contribuem para fazer jus a certos queixumes e vernáculos soados amiúde nas ruas e praças públicas.

Formas de vida...

O homem, trajando de forma um tanto ridícula, subia a rua em jeitos e trejeitos de vaidade. Acompanhava-o uma mulher pronta a fotografá-lo quando o mesmo lho solicitava: ora a mão posta no fecho da porta de um automóvel de luxo, ora no da porta de uma casa típica do lugar, ainda pintada de fresco. E, de cada vez, o homem ensaiava um ar de senhor de um mundo bem para lá do seu, ego preenchido. Quando regressar ao seu habitat natural, exibirá as fotografias obtidas noutro habitat artificial, que, por uns momentos de glória, da sua glória, foi compondo.

Finalmente, o acordar...

Ernesto Carolino Gomes

As creches, ou as famílias?...

Reportagem jornalística abordava um estudo inferente de vantagens adquiridas por crianças que frequentaram creches antes dos três anos de idade, substanciadas em «melhores resultados no desenvolvimento cognitivo e linguagem», relativamente àquelas que permaneceram no seio familiar.

Como é possível?!...

Os últimos tempos têm sido ricos de brutalidades que a comunicação social nos vem fazendo chegar de forma pouco menos (ou pouco mais) do que insensata, fria e crua. O direito à informação não tolera tudo. E até estou certo de que o excesso dela, variada e repetida, gera repetição daquilo que nos transporta. A violência que escancara, ausente de qualquer gesto censório, impulsiona os menos preparados e mais frágeis para a imitação do que lêem e do que vêem em imagens sofregamente marteladas.

Mães, filhos e violência

Do alto da sua ignorância completa na substância em causa, produziu a meritíssima a sua proposição, como se da virtualidade de qualquer dogma se tratasse. Para si, e reproduzi-o já as vezes que o dei por pertinente, os filhos pertencem às mães, por força da mãe natureza. Porventura, daí  a entrega, à mãe e de mão beijada, do poder paternal, que não das responsabilidades parentais, relativamente às crianças. À mãe, farinha do mesmo saco da douta, em termos profissionais, haverá de ter dado jeito que assim fosse, qualquer poder mais bem-vindo que quaisquer responsabilidades.

A violência doméstica e a circunstância

Vício antigo, a comunicação social  escancara as janelas do estrondoso, apimentando-o quanto pode, desprezando, porém e por norma, atitudes pedagógicas concernentes, também minguadas a nível institucional. Seduz o alarido, e não seduz a busca de soluções. Paira como nuvem escura de trovoada a violência doméstica, por vezes observada através de prismas estalados, outras redutor qualquer ensaio analítico tendo-a por objecto. E, entretanto, nada que rasgue a cortina de fundo que nos afasta de uma posição preventiva séria, rigorosa e adequada.

Os antónimos e os antípodas

Diz a gíria popular que a mudança dos tempos arrasta consigo a mudança das vontades e das virtudes. Acrescentarei que se substituem os valores, as atitudes, os comportamentos e as condutas, as normas e as regras, os usos e os costumes, formas de ser, de pensar e de estar. Erradamente, em nome de progressos civilizacionais que, da minha parte, longe de sonhos e utopias, encaro como retrocesso de gravidade maior, perdas irreversíveis para as comunidades e as sociedades. A criança tem razão, porque o rei vai nú.