Ernesto Carolino Gomes

O juízo dos juizes

Singela a notícia, bem mais que o respectivo conteúdo: inseria o rodapé a passar em programa televisivo que era pedida indemnização à CP e à Refer no valor de mais de dois milhões de euros por morte de juiz. A estupefacção primeira resumia-se à extensão disforme do valor em causa. Motivo: a crença de que o falecido, no seu exercício profissional, jamais decretara reparação igual a beneficiar terceiros. E nenhum juiz, por mais que o possa pretender, é pertença de outro mundo.

Saudades do futuro...

Saudade, eis a palavra portuguesa mais portuguesa das palavras que o nosso vocabulário, tão rico, pode comportar. Todavia, sem tradução. Porque não se diz a saudade; somente se sente e se vive, e os sentimentos não se traduzem nem são passíveis de quantificação. São o que são, e nada mais.

Eu (já) não acredito...

Nunca acreditei no Pai Natal, no seio de uma família onde era festejado o nascimento do Menino Jesus. Era Ele que, naquela noite fria, me trazia, virtualmente, as prendas deixadas à lareira da minha casa, no bucólico da minha aldeia. Prendas singelas, condizentes com a humildade e a pobreza do Menino, porém carregadas de Amor por todas as crianças. Com os tempos, sociedade e cultura trocaram-Lhe as voltas, quando o Pai Natal começou a adquirir em lojas de luxo o que Ele, na Sua condição modesta, não tinha condições de adquirir.

Acerca da criança...

«Obrigamos a criança a transportar o fardo dos seus deveres de homem de amanhã sem lhe conceder os direitos de homem de hoje». Para lá do mais, o que releva da afirmação de Janusz Korczac é a devida consideração da criança na sua condição real de homem. Não de homem em miniatura, esgotado de há muito o conceito do homúnculo, mas de homem em plenitude, pessoa humana no seu todo. Para mim, não unicamente após o nascimento, porém bem antes, à concepção, aqui ganhando, por direito, o estatuto de homem pessoa.

Contraposições & contradições...

Delas decorrentes, sustentam-se os progressos civilizacionais nas diferenças que marcam as diversas culturas, raças, ideologias e crenças, as desiguais formas de ser, pensar e estar de grupos humanos e pessoas individuais. Diferenças, diversidades e desigualdades a respeitar e valorizar, por isso mesmo. O acatamento pacífico das contraposições enfrenta e anula o monoideísmo cinzento e resistente à inovação.

De mera convicção à força da certeza

A «convicção ... permite pôr, com a consciência tranquila, o tom da força ao serviço da incerteza» (Paul Valery). Em boa verdade, serenidade de consciência não pode ser marca de quem (ab)use da mera convicção para camuflar ou branquear a incerteza. A convicção é subjectiva e anárquica, esponjosa e maleável, justificação de pretensões, falácia, império de sentidos, ela e a circunstância. É objectiva a certeza, granítica e imoldável, não serve nem hipoteca interesses.

Regresso a Abambres

Aqui e agora, nestas páginas, revisito Abambres, a aldeia onde nasci e que guardo no coração como uma mãe é guardada no coração de um filho, ou um avô no de um neto. Vezes amiudadas a ela me desloco, na ânsia sempre conseguida de reviver um passado longínquo, traduzido por uma infância feliz, a infância que deveriam merecer todas as crianças do mundo. Faço-o com o coração carregado de nostalgia e saudade.

Mensageiro de Bragança - uma vida...

O presente escrito objectiva, de sorte tão singela quanto sincera, felicitar o nosso Mensageiro pelos seus 75 anos de vida. Vida longa, o que traduz todo o empenho disponibilizado e o carinho nutrido por todos aqueles que o têm servido nas mais diversas vertentes. Porém, vida que perdurará pelos tempos vindouros, atento o sangue novo escorrido nas suas páginas e aquele outro que, nas retaguardas, vai desenvolvendo os trabalhos de arquitectura imprescindíveis à construção de cada edifício semanal.

Um ponto de vista...

Pertenço ao lote daqueles que se orgulham de haverem subido a pulso a corda da vida, sem privilégios. Ainda assim, e defensor do figurino da meritocracia, nunca privei com esta; ao invés, nos momentos em que me coube montar cavalos nas etapas diversas do meu percurso, vi-me no dorso de azémulas sem préstimo. Detentor de escolaridade relativamente longa e de qualificações que me aprazem e satisfazem, levanto o olhar e deparo-me com tantos a quem forças várias guindaram a lugares mais cómodos e dourados do que merecidos.

Os vícios da Justiça

Fui acompanhando de perto as notícias envolvendo o caso, desde o rapto da criança, da responsabilidade do pai, em território nacional, à decisão da justiça, em solo francês, para onde aquela fora deslocada. Em resumidos traços, fiquei a entender que o decisório judicial francês, tendo em conta a ausência de consenso dos progenitores relativamente à guarda da criança, entretanto institucionalizada, fez prevalecer a justiça portuguesa, entregando a mesma aos cuidados da mãe, ainda que provisoriamente e segundo o meu (a)percebido.