José Mário Leite

O QUARTO CAVALEIRO DO APOCALIPSE

“Olhei e vi um cavalo esverdeado; o que o montava tinha por nome Peste; seguia-o Hades. Foi-lhe dado poder sobre a quarta parte da terra, para fazer perecer pela espada, pela fome, pela peste e pelas feras da terra.” Ap 6:7
 

GUERRA SEM QUARTEL

Por cada cabeça que Hércules cortava à Hidra, nasciam duas no lugar dela. Para completar a sua tarefa teve a ajuda de Iolau que, queimando com uma tocha o lugar do corte, impedia que novas cabeças nascessem.
Esta cena mitológica tem duas questões relevantes:

O EXAME DA QUARTA

 
A primeira, segunda e terceira classes tinham prova no final do ano. A cópia, o ditado, a redação e a resolução de problemas eram primorosamente executados numa folha de trinta e cinco linhas dobrada na borda esquerda. Era nessa borda que a examinadora (eram raros os professores primários) colocava a classificação e o veredito final da passagem ou reprovação. Começava de manhãzinha, todos os alunos muito arranjadinhos, alguns estreavam fatiota nova e, a meio da tarde, sabidos os resultados era altura de festejar com laranjada e bolachas de baunilha.

DO BUTELO E DA VERGONHA

A Câmara Municipal de Bragança desceu à capital para promover a semana do Butelo e das Casulas. No mais transmotano dos restaurantes alfacinhas, o Nobre, ao Campo Pequeno, pertinho da Casa de Trás-os-Montes foi servida lauta refeição a condizer com o evento. Membros do Governo, Deputados e outras individualidades transmontanas, tuteladas pela figura patriarcal de Adriano Moreira, fizeram do restaurante de entrecampos território nordestino.

António (de novo)

A revista Visão trouxe, num dos seus últimos números, um artigo sobre as obras na praia D. Ana em Lagos. Veio-me à memória, de imediato, a minha primeira crónica em Fevreiro de 2007 sobre trabalhos idênticos a estes, na praia da Costa da Caparica apoiadas por ambientalistas que se opunham ao início da construção da Barragem do Baixo Sabor. A comparação é inevitável. Embora com cores ainda mais carregadas, embora com resultados confirmados sobre o que em fevereiro de 2007 eram apenas suposições embora com enorme dose de previsibilidade, da minha parte, que o tempo acabou por confirmar.

AGOSTO NORDESTINO EM CARCAVELOS OUTONAL

São mais de meia centena de histórias, lendas, ditos e relatos curtos que me chegam pela pena talentosa da moncorvense Júlia Guarda Ribeiro que o editor e amigo António Batista Lopes reuniu e editou com a chancela da Âncora Editora num volume sob o título de “Contos no Terreiro ao Luar de Agosto”. Trata-se de uma fabulosa coleção de contos curtos (duas a quatro páginas na sua maiora) ouvidas pela autora nas cálidas noites de Agosto, às velhas que se juntavam no bairro da Corredoura para partilharem memórias, ditos, saberes e experiências.

EM QUEM OU EM QUÊ?

É conhecido o ciclo breve da memória dos eleitores e da forma como muitos eleitos disso fazem uso, em proveito próprio. É recomendável que não abusem eles mesmos de idêntica falta de memória mais que não seja, para evitarem desilusões e prejuízos irrecuperáveis.
 

Estabilidade

A estabilidade governativa é, queira-se ou não, um benefício para Portugal. Nos que a defendem nunca a vi condicionar a qualquer cor política ou partidária. É-o e deve ser defendida quer se esteja no governo (e aí não tenho dúvidas sobre a genuinidade da sua defesa) quer se esteja na oposição (e, neste caso, não basta afirmá-lo se a prática não o confirmar). E isto nada tem a ver com o exercício legítimo e salutar da oposição forte, fiscalizadora, atenta, exigente e mesmo dura, porque não? Mas nenhum destes temas deve ser, quer na forma, quer no conteúdo, um atentado à estabilidade.

QUE SE LIXE

Quando em Julho de 2012 Pedro Passos Coelho reiterava perante os deputados social-democratas  que as vitórias eleitorais seriam sempre uma meta secundária perante o verdadeiro objetivo principal: o país que tinha de ser salvo quer do atoleiro em que se encontrava na altra, quer do garrote sufocante que a troica lhe aplicava implacávelmente, muita gente viu nessa afirmação, mero marketing político.  Outros acreditaram piamente na genuinidade e sinceridade de tal confidência, por razões várias e entendíveis mas que não vale a pena estar aqui a enumerar e muito menos escalpelizar.