Editorial

António Gonçalves Rodrigues // Sex, 2016-12-16 11:01

Em que século estamos?

Texto

Nesta altura do Advento, tudo é luz, cor, alegria. Tendemos a pensar em reunir a família à volta do bacalhau e do polvo. Tendemos em “ajudar os pobrezinhos, coitadinhos”, porque fica bem lembrarmo-nos deles nesta altura, em que serpenteiam pela imaginação os cenários ao jeito de Oliver Twist, de grande miséria pelas ruas e em que as crianças pouco mais tinham para prenda do que uma laranja ou um pedaço de carvão.
Os “jovens há mais tempo”, como diria o Pe. Américo, pintados com roupas andrajosas, barba de tantos dias que já se perdeu a conta, mas sem que uma alma cristã olhe por eles.
Eram tempos de miséria, de doença, em que uma constipação dizimava tanta ou mais gente do que uma Guerra Mundial.
Por esta altura já se perdeu a noção do tempo e talvez do espaço. Século XIX? Início do século XX (cuja miséria, no Nordeste Transmontano, se estendeu para lá dos meados)? Século XXI é que não.
Por isso, quando ouvimos a notícia (pode lê-la aqui, como já a pôde ler, pela primeira vez, a 3 de novembro, quando a jornalista Glória Lopes denunciou a situação pela primeira vez) de que um idoso morreu de hipotermia (morreu de frio), no casebre onde pernoitava enquanto esperava por vaga numa qualquer instituição ou família de acolhimento, vamos logo perguntar: em que século foi isso? Há quantos anos??
Foi no final da semana passada, em pleno século XXI.
Uma situação que nos devia envergonhar a todos, pois revela a incapacidade de todos enquanto sociedade, que deveria cuidar dos elementos mais frágeis e desamparados.
“Ah, e tal, a família não fez... Ah, e tal, esta ou aquela instituição não quiseram saber... Ah, e tal, ele não queria ser ajudado...” Ah, e tal...
É imperativo que todos nós, a começar nas instituições criadas para ajudar casos destes mas a passar também por cada um dos outros membros da sociedade, reflitamos.
Que não volte a acontecer.
Que não nos volte a acontecer.

Por falar em vergonha, no PS de Luís Silvestre dizem que já há candidato. Não sei se acredite. Mas se ele de facto o tiver, que o agarre bem, para ver se não foge, como têm fugido os elementos do seu Secretariado...