Editorial

António Gonçalves Rodrigues // Qui, 2017-11-23 11:07

Porque é que Maquiavel é para aqui chamado?

Texto

Já passou quase um mês desde as eleições autárquicas e os combates que então se travaram vão ficando para trás. A emoção, que muitas vezes tolda o raciocínio e condiciona as jogadas no tabuleiro do xadrez político (e provoca o erro), vai ficando aplacada e dando lugar ao pragmatismo e ao calculismo tático.
Entretanto, também se vão jogando as peças nas eleições internas do PSD. Por um lado, Rui Rio, homem do norte, com muitos anticorpos nas elites centralistas de Lisboa mas que representa uma ideia de política de mãos limpas, de meritocracia e rigor, muito rigor, nas contas e nas relações.
Do outro, o seu oposto. Santana Lopes e as suas nove vidas políticas. Mas porque é que se há de ter lançado às feras do combate partidário, nesta altura da sua vida, em que já foi Primeiro-Ministro e ocupava um lugar de prestígio e bem remunerado na Santa Casa de Lisboa? Calculismo, mais dos outros do que seu.
Apesar de ter criado um imbróglio a Passos na corrida autárquica em Lisboa (o ‘keep cool’ do congresso em Espinho revelou-se enganoso), a fação de Passos precisa de uma bandeira que junte os seus apoiantes num grupo, sob pena de o eleitorado se dispersar e já não estar disponível quando vier a ser necessário (a Luís Montenegro, quando o ex-líder da bancada parlamentar, com raízes em Rabal, Bragança, decidir avançar, depois das próximas Legislativas que deverão ‘queimar’ quem for o líder do PSD). Por outro lado, Santana há muito que é apontado como presidenciável, mesmo se já foi Primeiro-Ministro destituído pelo fraco desempenho, dando, depois, a maioria a José Sócrates nas eleições de 2005 (as únicas legislativas em que o PSD perdeu no distrito de Bragança, com Duarte Lima a encabeçar a lista, escolhido pelo então líder). Tem palco nas TVs e tinha palco na Santa Casa. E isso poderia ser um problema para… Passos, que também pensará em Belém daqui a oito anos. Nada como apelar ao ego e fazer Santana avançar já. Se perder, fica o assunto já arrumado e o eleitorado não se dispersa. Se ganhar, espera-se que perca a seguir com Costa, abrindo caminho ao senhor que se segue. Maquiavel não faria melhor. Mas, por mais que tivesse tentado, nem ele conseguiu fazer da política, matemática.